Bolsonaro, no bate-boca que manteve há alguns dias com Rodrigo Maia em torno da reforma da Previdência, foi duramente criticado por repetir que não vai se dobrar à “velha política”. Políticos, cientistas políticos e até ex-presidentes condenaram a sua atitude. Líderes partidários levaram ao ministro da Casa Civil um rosário de reclamações e a principal delas era a de que as suas demandas estavam sendo tratadas como se fossem práticas da “velha política”, a do “toma lá dá cá”. Um cientista político chegou a dizer que o “toma lá dá cá” é “negociação e existe em qualquer democracia”.
Fernando Henrique considerou um erro o bate-boca de Bolsonaro com Maia porque “maltratar quem preside a Câmara é caminho certo para o desastre”.
É possível que todos tenham feitos seus comentários com a melhor das intenções e que, de certa forma, até tenham razão, pelo menos em parte. Afinal, ninguém desconhece a inabilidade do presidente da República que, em seus pronunciamentos, se comporta como um elefante em uma loja de louças, espalhando cacos por onde passa. Mas o disse-me-disse e a tramitação da reforma da Previdência no Congresso parece ser uma ótima oportunidade para que o país defina com clareza o que é a “velha política” e o que pode se entender como uma legítima negociação entre os poderes Executivo e Legislativo em torno de um assunto relevante como, por exemplo, a reforma da Previdência.
Para começar, é preciso compreender que a Nova Previdência não é um projeto qualquer, um “cobra-dágua” como costumam ser chamadas no jargão Legislativo as matérias sem importância. A reforma da Previdência é essencial para que as contas públicas se reequilibrem, o que é considerado o primeiro e decisivo passo para a retomada do desenvolvimento, único caminho para um país que enfrenta problemas como, por exemplo, o desemprego que flagela 13 milhões de pessoas.
Diante de um projeto dessa importância, o mínimo que se espera do Congresso é que trate da questão com a responsabilidade de quem recebeu um mandato popular para decidir em favor do país, sem concessões a corporações que historicamente sempre foram beneficiadas. Quando o presidente diz que “a bola está com o Congresso”, ele não está errado já que cada um tem que cumprir o seu papel na história.
É legítimo que deputados e senadores proponham alterações no projeto do governo que não venham a desfigurá-lo. O que não é legítimo é que os parlamentares aproveitem o momento para exigir benesses que, essas sim, fazem parte da velha política que foi fragorosamente derrotada nas últimas eleições.