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É jornalista. Atualidades de economia e política, bem como pautas comportamentais e sociais, ganham análises neste espaço. Escreve às sextas

Sonho do fim da impunidade está mais longe com o desmonte da Lava Jato

Entre os interessados no fim da força-tarefa estão forças políticas e empresariais ligadas aos investigados e condenados e integrantes dos três Poderes. Isso explica porque petistas e bolsonaristas sonham em ver sepultadas as investigações

Publicado em 04/09/2020 às 05h00
Rompimento entre Jair Bolsonaro e Sergio Moro
Jair Bolsonaro e Sérgio Moro: investigações fizeram presidente mudar promessas de campanha contra a corrupção. Crédito: A Gazeta

Não é de hoje que ameaças de todos os tipos circundam a Operação Lava Jato, a maior iniciativa de combate à corrupção da história do país. São muitos os interessados em colocar um fim nessa iniciativa que recuperou R$ 4 bilhões que haviam sido desviados dos cofres públicos e promoveu 165 condenações e 119 denúncias apresentadas em suas 70 operações.

Entre os interessados no desmonte da Lava Jato estão forças políticas e empresariais ligadas aos investigados e condenados, os profissionais do direito que representam os acusados, e integrantes dos três Poderes da República. Só isso explica porque petistas e bolsonaristas, alguns ministros do Supremo e até figuras ligadas à Procuradoria Geral da República sonham em ver sepultadas as investigações da operação.

O caso dos bolsonaristas é exemplar de como os interesses mudam com o tempo. Vencedor das eleições empunhando a bandeira da moralização pública, Bolsonaro parecia estar disposto a cumprir as suas promessas de campanha ao nomear Sérgio Moro como ministro da Justiça. Entretanto, foi só as investigações chegarem perto de sua família para o presidente mudar radicalmente de posição. Empurrou Moro para fora do ministério e nomeou um procurador-geral da República disposto a implodir a operação.

Tudo indica que a Lava Jato esteja próxima do fim. Moro está fora do ministério e Deltan Dallagnol, que estava à frente da força-tarefa de Curitiba desde o início da operação, em 2014, pediu o boné alegando problemas particulares. Já há meses que Dallagnol sofre o desgaste de denúncias feitas por partidários de pessoas condenadas em decorrência das investigações que promoveu.

No Supremo Tribunal Federal, a Lava Jato tem sofrido numerosas derrotas. O tribunal proibiu as prisões dos condenados em segunda instância e anulou as condenações nas quais os réus haviam apresentado alegações finais simultaneamente às dos delatores. Sua segunda turma, conhecida como “Jardim do Éden”, tem seguidamente beneficiado condenados que recorrem das sentenças sob as mais diversas alegações.

Um momento decisivo para a operação será a prorrogação ou não da força-tarefa de Curitiba que mantém em andamento quatrocentas investigações. O prazo da força-tarefa se encerra no próximo dia 10. Uma subprocuradora do Conselho Superior do Ministério Público Federal, em decisão liminar, prorrogou a operação por um ano. Resta saber qual será a reação do procurador-geral da República a essa decisão.

Diante de todo esse cenário de desmonte da Lava Jato, fica a impressão de que estamos nos despedindo da ilusão de que o Brasil estaria deixando de ser o país da impunidade. E que, tal como aconteceu com a operação italiana “Mãos Limpas”, voltam a reinar, sem serem incomodados, os ladravazes do dinheiro público e os destruidores da honra e da dignidade nacional.

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