O debate em torno das pesquisas eleitorais voltou com força após a divulgação dos resultados do primeiro turno das eleições. Os críticos repetem acusações de que os institutos teriam manipulado os números para favorecer candidatos, baseados na antiga crença de que os dados de intenção de votos influenciam a decisão dos eleitores que tenderiam a votar nos candidatos melhor colocados. Alguns partidos políticos chegam a defender a criação de uma CPI para criminalizar os institutos. Até o Cade, Conselho Administrativo de Defesa Econômica, cogitou ter ocorrido formação de cartel entre três institutos, o Ipec, o Ipespe e o Datafolha.
Felizmente o presidente do TSE, Alexandre de Moraes, impediu o inquérito do Cade, argumentando que a fiscalização das entidades de pesquisa é de competência da Justiça Eleitoral. Para Moraes, a iniciativa se baseava “unicamente em presunções relacionadas à desconformidade dos resultados das urnas com o desempenho de candidatos retratado nas pesquisas”.
Poderia o ministro ter dito, também, de forma didática, que as pesquisas são um retrato da intenção dos eleitores no momento em que as entrevistas são feitas e não uma projeção do resultado eleitoral que só é conhecido na apuração oficial.
Muita gente, contudo, continua achando que as pesquisas têm a obrigação de informar dias antes, com exatidão, o que irá ocorrer na votação e, por isso, acertam ou erram. Ora, se os resultados de uma pesquisa de intenção de votos são um simples retrato de um momento, não é razoável supor, ou exigir, que eles sejam uma antecipação da votação. Se fossem, nem precisaria haver a votação.
As pesquisas não têm a capacidade de identificar com precisão todas as variáveis ou fatores que podem modificar a intenção de voto do eleitor nas horas que antecedem a sua ida à cabine de votação. Mesmo que o eleitor diga ao pesquisador, com convicção, que não irá mudar o seu voto, ele estará sujeito às influências das redes sociais, dos debates, da propaganda e das conversas com amigos e familiares. A abstenção, que é a decisão do eleitor de não ir votar, também dificilmente é captada nas pesquisas.
Há ainda que ser considerado o receio que as pessoas, de um modo geral, têm de ser abordadas nas ruas ou nas residências. A insegurança, principalmente nas grandes cidades, faz as pessoas ficarem inacessíveis, resguardadas em condomínios que só abrem as portas para seus moradores. Para superar esse problema, os institutos recorrem, cada vez mais, à entrevista pelo telefone, que é considerada menos eficaz e precisa do que a entrevista presencial.
Acrescente-se ainda a defasagem dos dados demográficos captados pelo IBGE, que desde 2010 não faz o recenseamento dos brasileiros. Visto dessa forma, é possível compreender que os institutos de pesquisas, mesmo que utilizem técnicas científicas eficazes de prospecção de intenção de voto dos eleitores, não conseguem fazer mais do que isso, ou seja, de captar intenções e não de enxergar, em uma bola de cristal, o resultado da votação que irá ocorrer dias depois.
Então, para que servem, afinal, as pesquisas eleitorais? Elas são, nada além disso, uma informação a mais para o eleitor, candidatos e partidos políticos porque, embora não antecipem os resultados das urnas, revelam tendências que são úteis para as campanhas. E as influências que elas possam ter sobre o eleitor são as mais diversas e não só a de levá-lo a votar em quem está na primeira colocação. Muitas vezes o eleitor é motivado a votar em candidatos que não estão à frente das pesquisas, o que explica as numerosas viradas que às vezes ocorrem nos últimos dias das campanhas.
Por isso, o erro não é das pesquisas, mas de quem as interpreta mal. É melhor compreender as pesquisas como o que elas realmente são: um dado a mais nessa imensidade de informações que inundam a política nesses dias que antecedem ao grande momento da democracia que é o ato de votar.