Não é de hoje que a revitalização do Centro de Vitória frequenta, às vezes mais, às vezes menos, as anunciadas listas de prioridades de nossas autoridades. Em 1996, por exemplo, o tema mereceu um capítulo no projeto “Vitória do futuro” que, sob a batuta do então prefeito Paulo Hartung, se dispôs a elaborar o “plano estratégico com vistas a delinear a cidade desejável” que se pretendia “construir até o ano de 2010”. O futuro desejado era o de “propiciar a valorização do Centro enquanto espaço urbano dotado de características próprias e intransferíveis, com a melhoria dos seus atuais níveis de habitabilidade, funcionalidade e beleza”.
Passados 25 anos e três outros prefeitos (Luiz PauloLuiz Paulo, João Coser e Luciano Rezende) é possível verificar, em um simples passeio pelo Centro Histórico da Capital que, apesar das boas intenções e das ações realizadas, o local está agonizando. Boa parte do comércio fechou as portas, os escritórios de profissionais liberais e prestadores de serviços praticamente desapareceram, a sensação de insegurança é enorme (principalmente após as 19 horas) e os imóveis, de uma maneira geral, apresentam péssimo estado de conservação.
O tema está voltando ao debate porque acaba de ser concluído, por estudantes da Faesa, o projeto de extensão “Imóveis em Abandono”, realizado em parceria com a Prefeitura de Vitória, dando conta que há 217 imóveis ociosos na Avenida Jerônimo Monteiro (a principal da capital), Rua Sete de Setembro e Cidade Alta.
Esse número é 70% superior ao de 2019, quando projeto semelhante, realizado pelo BR Cidades, Ufes, Defensoria Pública e Associação de Moradores identificou 127 imóveis vazios. O projeto da Faesa, realizado no segundo semestre de 2021, montou o mapa atualizado de ociosidade do Centro, considerando os edifícios vazios ou subutilizados e ouviu os moradores da região sobre suas expectativas com relação às ações de qualificação urbana e incentivo à ocupação dos imóveis que poderiam reverter o panorama de ociosidade.
É possível constatar que as autoridades e instituições, ao longo dos anos, têm realizado esforços para melhorar as condições do Centro, recuperando monumentos históricos (como o Palácio Domingos Martins, antiga Assembleia Legislativa), escadarias, museus (como o Museu do Negro) e teatros (como o Carlos Gomes e o Glória), viabilizando o uso como habitação de alguns prédios que tinham outra destinação (como os antigos Hotel Estoril e cine Santa Cecília), e construindo ciclovias (como a do cais do porto) e o Portal do Príncipe. Mas essas ações se mostram insuficientes quando se vê que a degradação do Centro continua acelerada.
Revitalizar centros de grandes cidades tem sido um desafio enfrentado pelas autoridades tanto no Brasil quanto em outros países. Os especialistas asseguram que, nos casos mais bem sucedidos, o estímulo às atividades econômicas é essencial. Sem atividade econômica, os imóveis são desocupados e se desvalorizam, reduzindo gradativamente o fluxo de pessoas. É fácil perceber que o declínio das atividades econômicas, no Centro de Vitória, é fator determinante para a aceleração da sua degradação, daí ser essencial estímulos à recuperação de imóveis e aos empreendedores de novos negócios.
A atual gestão da Prefeitura de Vitória anunciou que irá utilizar o projeto realizado pelos alunos do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Faesa como subsídio ao seu Programa de Requalificação do Centro. Esse programa prevê, entre outras melhorias, ações nas ruas Sete e Gama Rosa e as reformas do Mercado da Capichaba, do Colégio São Vicente e do Viaduto Caramuru. A iniciativa privada pretende dar a sua contribuição ao programa transformando as salas de um prédio comercial vazio (o Edifício Ada) em apartamentos tipo studio de alto padrão.
Quem, como eu, é saudosista e morou muitos anos no Centro (na Ladeira São Bento, na rua Uruguai e na Escadaria Nicolau de Abreu) torce para que isso, de fato, venha a acontecer.