Foi prazeroso ouvir, no último dia 10, a palestra do jornalista Patrik Camporez na aula inaugural do 29º Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta. Capixaba, Camporez construiu uma carreira de sucesso iniciada na Rede Gazeta e agora cada vez mais exitosa como jornalista de investigação e política de “O Globo”.
Na sua atividade, após se mudar para Brasília, Camporez passou pelas revistas “Época” e “Crusoé” e pelo jornal “O Estado de São Paulo”, sempre publicando reportagens de grande repercussão.
Já na apresentação do palestrante, Bruno Dalvi e Geraldo Nascimento, editores-chefes da TV Gazeta e A Gazeta, destacaram a contribuição de Camporez no fortalecimento do jornalismo, por eles descrito como algo “imprescindível na vida das pessoas” por transmitir informações qualificadas, bem apuradas, “com técnica, método e responsabilidade e consciência do papel que exerce na sociedade”.
Daí o título da palestra, “Jornalismo investigativo na era da desinformação”, apropriada para ilustrar o trabalho de Camporez.
Testemunhei a fase inicial da trajetória de Camporez nos anos em que trabalhou em A Gazeta e produziu reportagens admiráveis como as que denunciaram o trabalho escravo na colheita do café, as mortes na extração do mármore e a “guerra pela água”. À época, tive a oportunidade de convidar Camporez para expor para os meus alunos do curso de comunicação como o jornalismo poderia contribuir para melhorar a sociedade ao denunciar questões que não chegavam ao conhecimento da opinião pública.
Na aula inaugural, ao narrar as reportagens que produziu ao longo da sua carreira, inclusive as mais recentes que denudam casos de corrupção na cúpula dos poderes da República, Camporez ressaltou a importância do jornalismo (“pilar fundamental da democracia e dos direitos humanos”) no meio do atual “caos informacional” turbinado por tantas fake news, inteligência artificial e mensagens veiculadas nas redes sociais por pessoas mal intencionadas.
Ao final, ao responder à pergunta sobre o risco que corre de sofrer retaliações por investigar fatos que os donos do poder desejam que continuem escondidos, Camporez reafirmou o seu ideal de praticar o bom jornalismo que possa ajudar as pessoas, com ética e compromisso, confiando na liberdade de imprensa e no direito de expressão assegurados pela Constituição Federal.
Saí da aula inaugural com a alma lavada por ouvir tantos depoimentos que fortalecem a crença no bom jornalismo e na sua importância para o mundo, reafirmando o fato de ele ser uma conquista civilizatória que merece ser preservada e protegida pela sociedade.
Mal sabia eu que, poucas horas depois, viria a tomar conhecimento de que a mais alta corte de Justiça do Brasil – logo ela que tem por missão garantir o cumprimento da Constituição – havia quebrado um dos princípios basilares da liberdade de imprensa, assegurado pela Carta Magna, o do sigilo das fontes jornalísticas.
Está lá, textualmente no Artigo 5º, inciso XIV da Constituição, como cláusula pétrea que nem uma emenda constitucional pode alterar: “É assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional”.
Mesmo assim, um ministro autorizou a busca e apreensão de celulares e computadores na casa de um jornalista para descobrir a fonte da denúncia publicada contra um colega seu.
Foi um descumprimento tão evidente de um preceito constitucional que as associações nacionais dos jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão protestaram: “A violação do sigilo profissional e de suas fontes leva a intimidações contra a imprensa que não condizem com o Estado Democrático de Direito e o livre exercício do jornalismo”.
Como chegaram a dizer os advogados da fonte, diante do fato de seu cliente estar sendo investigado, a quebra do sigilo abriu caminho para um grande paradoxo: “investiga-se quem revelou a irregularidade, mas não a irregularidade em si”.
Que Camporez e os jornalistas de investigação do nosso país continuem na sua missão de revelar o que os poderosos querem esconder. Foi graças a esse trabalho que o Brasil passou a conhecer as entranhas apodrecidas do mensalão, do petrolão, dos descontos criminosos nas aposentadorias, dos penduricalhos turbinados dos magistrados, do Caso Master, entre tantos outros escândalos que envergonham a nação.
Só assim será possível manter a esperança e a força para combater a desordem que, infelizmente, campeia nos altos escalões da nossa pátria e que só aparecem à luz do dia graças ao bom jornalismo que fiscaliza e denuncia, exercendo sua função básica de “cão de guarda” no sistema democrático.