Diferentemente do que ocorre em outros estados da federação, o Espírito Santo tem alcançado bons resultados no combate à violência. A quantidade de mortes violentas tem diminuído ano a ano. De 2020 a 2024, a redução foi de 23% (de 1.107 para 854). Tudo indica que 2025 vai registrar um número ainda menor. Mesmo antes de 2020 a tendência de redução de mortes violentas já ocorria, se considerado que o recorde de assassinatos registrado durante a greve da Polícia Militar em fevereiro de 2017 foi um ponto fora da curva.
A receita que está dando certo não é difícil de adivinhar: inclui ações na área policial e social. Combina um maior aparelhamento das polícias, capacitando-as a aumentar a efetividade na investigação e no controle dos crimes violentos, com ações na educação, oportunidades de emprego e cidadania principalmente nos territórios de maior vulnerabilidade social. Parece simples, mas não é, se considerada a complexidade de uma sociedade atormentada cada vez mais pelo tráfico de drogas.
Esses bons resultados podem e devem ser comemorados, mas é necessário não esmorecer. A megaoperação no Alemão e na Penha, no Rio de Janeiro, no dia 28 de outubro, só fez confirmar o que já se sabia: vários chefes do tráfico capixaba estavam escondidos nas favelas cariocas. Não é preciso muito esforço para se concluir que também os traficantes cariocas, para escapar dos cercos policiais, também se homiziam aqui.
Ninguém desconhece, ainda, que as grandes facções criminosas do Brasil, entre as quais estão o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, estão espalhadas pelo país. Inclusive no Espírito Santo, como comprovou a operação da polícia capixaba que resultou na prisão de 20 pessoas ligadas ao Comando Vermelho com base em Fundão e ramificações na Serra, Vila Velha e Colatina.
A operação, realizada no dia 5, pretendia cumprir 35 mandados de prisão e 27 de busca e apreensão contra um grupo denominado “Tropa da França”, uma espécie de franquia do Comando Vermelho. E essa não foi a única operação, porque se tratava de uma terceira fase da operação “Fim de Linha” iniciada em abril.
Esses fatos revelam que o combate à violência não deve esmorecer; ao contrário deve ser redobrado para que os avanços conquistados não se percam ao longo do tempo. É muito difícil avançar, e é fácil retroceder, basta um pequeno desvio no foco. A população sabe disso, tanto que tem apontado a segurança pública como tema essencial a ser abordado pelos políticos nas próximas eleições.
Recente pesquisa da Atlas/Intel mostra que 55,5% dos brasileiros aprovaram a ação policial realizada nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio, aprovação que chega a 62,2% entre os cariocas e 87,6% entre os moradores das favelas do Rio.
A repercussão da megaoperação da polícia do Riorecolocou a segurança pública no centro dos debates políticos nacionais e isso é positivo na medida em que pode ajudar na construção de alguns consensos indispensáveis na luta contra a violência. Entre esses consensos deveriam estar, entre outros, a necessidade da integração das forças policiais, da inteligência e da tecnologia e investigações sobre as fontes financeiras das facções e milícias.
E, para evitar que os criminosos retomem os territórios após as operações policiais, que os poderes públicos implementem políticas permanentes e robustas de prevenção ao crime nos bairros de maior risco com ações, entre outras, nas áreas da educação, cultura, fomento do emprego e obras e serviços de infraestrutura urbana.