Se alguém ainda tinha dúvidas sobre essa realidade, as recentes eleições confirmaram que o eleitorado rejeita os extremismos e, quando se trata de eleger prefeitos e vereadores, decide o voto baseado na competência dos candidatos sem se deixar influenciar pelas ideologias políticas. Foi assim no Espírito Santo e foi assim no Brasil. Candidatos que adotaram discursos mais radicais e tentaram polarizar o pleito entre direita e esquerda foram derrotados na grande maioria das disputas.
A quantidade de prefeitos eleitos retrata a preferência do eleitorado pelos candidatos lançados pelos partidos situados mais ao centro do espectro político. São eles, no país, o PSD, o MDB, o PP e o União Brasil. No Espírito Santo, incluem-se na lista o Podemos e o Republicanos, ficando a exceção para o PSB do governador Renato Casagrande que elegeu 22 prefeitos e que está longe de alguém ousar classificá-lo como “de esquerda”.
Dos partidos mais expressivos situados nos extremos – PL, à direita, e PT, à esquerda – o PL ainda pode se vangloriar por ter ampliado a quantidade dos seus prefeitos de 351 para 517, mas, mesmo assim, esse número o coloca apenas no 5º lugar. O PT só elegeu a metade de prefeitos do PL, 252, número que é maior que o de 2020 (184) mas menos da metade dos 625 que elegeu em 2012. Nas capitais, o PT só elegeu o prefeito de Fortaleza e, mesmo assim, com uma vantagem mínima em relação ao segundo colocado.
No Espírito Santo, o PL teve que se contentar com cinco prefeitos enquanto o PT não foi vitorioso em nenhum dos municípios capixabas. Não é sem razão que o ministro das relações institucionais do governo, Alexandre Padilha, que é um dos expoentes do PT, disse que, na sua avaliação, o partido ainda “não saiu da zona de rebaixamento que entrou nas eleições municipais de 2016”.
Outro aspecto das eleições deste ano que tem atraído a atenção dos analistas políticos se refere à abstenção, que foi recorde da série histórica, só não sendo maior da que foi registrada no pleito realizado no período da pandemia da Covid-19. Em 2020, em plena pandemia, a abstenção no 2º turno chegou a 29,47%; em 2024 ela atingiu 29,26% (no 1º turno, foi de 21,71%). O fato preocupa a presidente do TSE, ministra Cármen Lúcia, que chegou a dizer que há necessidade de “fazer a população repensar a importância da escolha dos representantes”.
No município de Serra, no Espírito Santo, a abstenção no 2º turno em 2024 foi ainda maior (33,17%) e consolida uma tendência de alta já que no 2º turno de 2020 havia sido de 31,90% e em 2016 de 22,47%. Mas no 1º turno ela foi bem menor, o que sinaliza um maior interesse do eleitor em votar quando há mais cargos e uma quantidade maior de candidatos na disputa.
O TSE, atendendo à recomendação da sua presidente, irá aprofundar os estudos sobre as causas da abstenção para tentar reduzir o índice nos próximos pleitos. Mas alguns desses motivos estão evidentes como a aversão de muitos eleitores à prática política brasileira, recheada de escândalos e de promessas não cumpridas, sem falar da baixaria que toma conta das campanhas políticas, mais voltadas em xingar adversários do que apresentar propostas de interesse da sociedade. É preciso considerar também o aumento da quantidade de eleitores com mais de 70 anos, para os quais o voto não é mais obrigatório.
Como escreveu o jornalista Leonel Ximenes, diante do recorde de abstenções, a conclusão a que se chega é a de que, já que o legislador se omitiu, o eleitor já decidiu: no Brasil, o voto é facultativo.