Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cerca de 9,9 milhões de eleitores deixaram de votar no segundo turno das eleições municipais de 2024. Isso representa cerca de 30% do eleitorado. Para ser mais precisa, 29,26% dos eleitores deixaram de comparecer às urnas nesse ato que representa um dos momentos mais significativos de nossa democracia. Os motivos são diversos e difíceis de serem decifrados.
Nesse sentido, precisamos estar conscientes que entender as razões que levaram essas pessoas a abrirem mão de seu direito e de sua responsabilidade enquanto cidadãos é essencial para a manutenção da democracia em nosso país.
Não podemos olhar para esses números com naturalidade ou a partir de justificativas meramente eventuais como desejam alguns ao incluir em suas análises, exclusivamente, eventos pontuais, tais como fenômenos climáticos, feriados, entre outros. Alguns desses eventos, ainda que esporádicos, regionais, ou fortuitos, são importantes para a análise da abstenção. Há, entretanto, questões mais amplas, intricadas, que evolvem um caráter mais geral e que se aplicam a todo o território nacional.
O fenômeno é, portanto, complexo e precisa ser objeto de análise mais acurada por parte de cientistas sociais, cientistas políticos, pesquisadores em geral e, inclusive, especialistas/pesquisadores do próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e Tribunais Regionais Eleitorais (TREs).
O desencanto com a política me parece ser uma das mais fortes razões justificadoras da alta abstenção no segundo turno da última eleição municipal no país. Há um sentimento generalizado de desilusão, falta de esperança, descrença na política e nos políticos.
Ao tempo em que o desencanto se capilariza, sustentado em um desalento frente às decepções vivenciadas diante dos múltiplos escândalos e das constatações do engodo generalizado gerando bolhas que alimentam discursos de ódio e polarizações, parece haver um esforço concentrado entre grupos políticos de matriz ultra conservadora, que se encontram mobilizados e participativos no processo eleitoral.
O caminho para o enfrentamento dessa condição que nos leva à crescente abstenção e perda do espírito de cidadania tão bem alinhavado pelos constituintes e pela doutrina é, baseado em um compromisso educativo, emancipatório que é de responsabilidade de todos nós, do próprio Estado, dos partidos em geral com suas fundações bem como do aparato educativo público e privado.
Educar para a cidadania, com a consciência de nossa responsabilidade pelos destinos da nação, é sobretudo entendermos que nosso papel começa nas eleições e se desdobra em um cotidiano de acompanhamento firme da forma como nossos candidatos se comportam no exercício de sua responsabilidade política, seja no legislativo, seja no executivo.
Educar para a cidadania é a condição primeira e principal para o enfrentamento da abstenção nas eleições e de tudo aquilo que as abstenções representam.