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É juiz de Direito aposentado e escritor. Aborda temas atuais com uma visão humanista, com foco nos direitos humanos. Escreve às quartas

Por que não se tomam medidas efetivas para acabar com a fome no mundo?

A fome é a mais violenta negação dos direitos humanos. Por que a humanidade terá de transpor um novo milênio carregando, nos ombros, a imoralidade e a antijuridicidade da fome?

Publicado em 12/08/2020 às 05h00
Atualizado em 12/08/2020 às 05h01
Prato vazio e a fome
Insuficiência alimentar na infância provoca danos irrecuperáveis para sempre. Crédito: Pixabay

No dia 9 de agosto de 1997 faleceu Betinho, profeta contra a fome. No artigo de hoje, publicado três dias após a data que nos lembra a memória de Betinho, cabe refletir sobre a fome.


Existem presentemente cerca de um bilhão de pessoas subnutridas no mundo. As pessoas que passam fome, em sua maioria, são mulheres e crianças.


As mortes por fome, segundo dados da ONU, suplantam as mortes por sida, malária e tuberculose somadas. Insuficiência alimentar na infância provoca danos irrecuperáveis para sempre.

Por este motivo, a fome é a mais violenta negação dos direitos humanos.

Aparecem recursos para acabar com doenças que, nos países pobres, ameaçam, pela contaminação mundial, a saúde dos ricos da Terra. Por que não se tomam medidas para acabar com a fome?

Por que a humanidade terá de transpor um novo milênio carregando, nos ombros, a imoralidade e a antijuridicidade da fome?

Grande Josué de Castro, que merece estátuas modeladas em ouro, em bronze, ou simplesmente em pão, em todos os horizontes e em todos os continentes, inclusive na sede da ONU!

Belo profeta brasileiro que denunciou, com pioneirismo, as causas sociais da fome. Josué de Castro mostrou a fome como “problema social”.

Graciliano Ramos, nos seus romances, retratou a fome como problema político. A fome não brota do céu. A fome tem causas na terra, nas injustiças imperantes. Josué e Graciliano sofreram exílio e prisão por dizer uma verdade óbvia.

No Brasil deste século, a grande figura profética, na luta contra a fome, foi o sociólogo Herbert de Souza, ou simplesmente o Betinho, como ficou carinhosamente conhecido. A fome tem pressa, disse Betinho, com extrema racionalidade.

Condenado a morrer, Betinho lutou, até o último momento, pela vida. Mas não tanto pela sua vida, lutou muito mais pela vida do povo brasileiro, dos marginalizados e oprimidos, dos que são massacrados pela injustiça brutal que é a fome.

Não poderia haver, na sociedade brasileira contemporânea, figura que pudesse simbolizar melhor esse grito contra a fome. Betinho estava predestinado para ser o líder da cruzada que empunhou.

Morto Betinho, a luta deve continuar. E deve continuar com mais vigor ainda, sob a chama da vida de Betinho, sob a inspiração deste ser humano incomum que, com muita razão, frei Leonardo Boff proclamou como “santo”.

Que se multiplique por este país, de todas as formas possíveis, o eco ao apelo que Betinho fez, em nome dos que não têm calorias nem para protestar.

A miséria degrada a condição humana. E o faz com tanta violência que torna difícil para o miserável a luta por outros direitos que não apenas o de comer.

Direitos humanos alimentacao

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