Participei, há poucos dias, de uma reunião convocada pelo novo arcebispo da Arquidiocese de Vitória, Dom Dario Campos. Foi um encontro que proporcionou alegria e esperança a todos que tiveram a oportunidade de partilhar do mesmo. Ocorreu em Ponta Formosa, um pedaço de chão que tem história.
Em razão deste fato do presente, eu me lembrei de um bispo do passado, que conheci pessoalmente. Não percebo uma razão especial para esta reminiscência. É um mistério que Freud não explicaria, nem eu posso explicar. Porque Dom Dario Campos me levou a Dom Hélder Câmara eu não sei dizer. Mas o certo é que isto ocorreu e é a razão deste escrito de hoje.
A expressão minorias abraâmicas foi criada por Dom Hélder Câmara. Na política, nas igrejas, nos espaços sociais em geral, a minoria não comanda. Numa visão pragmática, a minoria deve submeter-se à maioria, ainda que essa maioria escravize a minoria.
Através da TV, das emissoras de rádio e dos jornais, podemos tomar conhecimento dos resultados das pesquisas de opinião. Se as pesquisas forem honestas registrarão o pensamento majoritário e o pensamento minoritário.
Dom Hélder foi arcebispo em Olinda e Recife nos tempos da ditadura de 1964. Antes, tinha exercido o múnus episcopal no Rio de Janeiro. Sua saída ou expulsão da mais importante e influente cidade do país não foi explicada, nem tinha de ser explicada, pois Roma detinha, como ainda detém, o poder de mandar um bispo para onde queira.
Certo é que Dom Hélder foi mal compreendido, tanto pela sociedade dominante, quanto por membros da própria Igreja a que pertencia. Do seu exemplo e de suas palavras, podemos extrair lições perenes. Dom Hélder nos ensinava que quanto mais escura fosse a noite, mais luminosa poderia ser a madrugada que anuncia o novo dia. Isso fazia com que nunca desanimasse diante das dificuldades que enfrentava, tanto no nível social e político, como nas relações eclesiais.
Ele acreditava na promessa bíblica: “o deserto se transformará em jardim”. Mesmo aquilo que, no mundo e ao redor de nós, parece uma situação impossível de ser transformada, pode sim ser superada através do pensamento e do trabalho de base. Dom Hélder dizia que Deus deu ao ser humano o poder e a responsabilidade de não se conformar com o sofrimento do inocente, mas de combater o mal e a injustiça.
Dom Hélder dizia: “Nenhuma felicidade pode basear-se na infelicidade dos outros, porque ofenderia o sentido de justiça que diz respeito a todos. Deus deu ao ser humano o poder e a responsabilidade de não se conformar com o sofrimento do inocente, mas de combater o mal e a injustiça.”
O mundo não mudará pela ação isolada de líderes esclarecidos e sim pelo empenho comunitário de grupos de resistência que se consagrem a transformar o mundo a partir de uma profunda convicção de fé no ser humano e na vida. A última palavra neste mundo não pode ser a morte, mas a vida, não o ódio, mas o amor.