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É mestre em História pela Ufes. Neste espaço, a história capixaba é a protagonista, sem deixar de lado as atualidades. Escreve às terças

Quem vai tumultuar as eleições de 2022 no Brasil?

Certo grupo político promete causar problemas na próxima eleição presidencial

Publicado em 27/07/2021 às 02h00
Urnas eletrônicas
Diante do quadro apresentado, é importante que as instituições e a sociedade permaneçam vigilantes em defesa da soberania popular e atuem preventivamente para impedir retrocessos. Crédito: Carlos Alberto Silva

Certo grupo político promete causar problemas na próxima eleição presidencial. Um difícil teste, portanto, será aplicado na democracia brasileira em 2022, o que nos leva a indagar: da redemocratização até aqui, alguma liderança ou partido já buscou tumultuar o processo eleitoral?

Considerando apenas as disputas para presidente da República, a resposta é não. Em 1989, no primeiro pleito presidencial após a ditadura militar, Fernando Collor (PRN) e Lula (PT) se enfrentaram no segundo turno. Divulgado o resultado, o petista reconheceu a legitimidade do novo governo e chamou o adversário, segundo reportagem do Jornal do Commercio, de “a maior mentira que já existiu neste país”. Apesar das duras críticas, respeitou a vontade da maioria.

Em 1994 e 1998, Lula sofreria duas derrotas para Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Na primeira, o candidato do Partido dos Trabalhadores declarou ao Jornal do Brasil: “Torço para que o Fernando Henrique cumpra o que prometeu, mas só conseguirá com pressão da sociedade”. Quatro anos depois, com 57% do eleitorado votando em urnas eletrônicas, os petistas criticaram a influência do poder econômico na eleição e a suposta parcialidade da mídia e das pesquisas, mas não ao ponto de considerar a apuração fraudulenta.

De 2002 a 2014, o jogo virou e o PT venceu quatro eleições presidenciais seguidas, todas contra o PSDB. Em 2002, o vencido José Serra reagiu como um democrata, conforme noticiado pelo Correio Brasiliense: “José Serra telefonou para o adversário Luiz Inácio Lula da Silva, reconhecendo a derrota e parabenizando Lula pela vitória. ‘Estou lhe telefonando para reconhecer sua vitória’, disse José Serra. ‘Você foi um adversário muito leal’, respondeu Lula. A ligação durou cerca de três minutos e foi muito amistosa”.

Em 2010, agora contra Dilma Rousseff, Serra repetiu o gesto em discurso transmitido pela televisão: “No dia de hoje, os eleitores falaram e nós recebemos com respeito e humildade a voz do povo. Quero aqui cumprimentar a candidata eleita Dilma Rousseff e desejar que ela faça bem para o nosso país”. Quatro anos antes, o presidenciável Geraldo Alckmin também colocou a democracia em primeiro lugar: “A democracia é uma beleza. Liguei para o presidente Lula, desejando a ele um bom mandato, que é o que todos nós queremos”.

O ano de 2014 testemunhou a reeleição de Dilma Rousseff contra Aécio Neves. O tucano, embora tenha cumprimentado a opositora pela vitória, destoou dos correligionários e estimulou o PSDB a pedir auditoria para verificar possíveis falcatruas na eleição. Sem nenhuma evidência de irregularidades, o próprio Aécio reconheceu em nota divulgada recentemente: “Eu não acredito que tenha havido fraudes nas urnas em 2014”.

Na última, a de 2018, o PT perdeu a quarta de oito eleições presidenciais disputadas. Registre-se que o candidato petista Fernando Haddad rompeu a tradição e não telefonou para Jair Bolsonaro (na época PSL), mas no dia seguinte à eleição, pelo Twitter, dirigiu-se cordialmente ao adversário: “Presidente Jair Bolsonaro. Desejo-lhe sucesso. Nosso país merece o melhor. Escrevo essa mensagem, hoje, de coração leve, com sinceridade, para que ela estimule o melhor de todos nós. Boa sorte!”.

Em suma, os perdedores de 1989 a 2018 renderam-se ao voto. Os eleitos tomaram posse normalmente, não houve desordem e nem tentativas de golpes de Estado, ou seja, a solidez da democracia brasileira garantiu o direito de escolha do cidadão e evitou qualquer reação autoritária.

Diante do quadro apresentado, é importante que as instituições e a sociedade permaneçam vigilantes em defesa da soberania popular e atuem preventivamente para impedir retrocessos. Nesse sentido, caso tentem subverter a ordem em 2022, a resposta precisa ser rápida e clara: processo, julgamento e prisão.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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