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É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

Uma vida realmente não tem preço?

Espera-se que, quando a pandemia passar, a saúde pública não volte ao esquecimento. Há muitas mortes a evitar, talvez até economizando recursos públicos

Publicado em 05/07/2020 às 06h00
Vitória - ES - Covas abertas para sepultamento de vítimas da covid-19 no cemitério Boa Vista, em Maruípe.
Covas abertas para sepultamento de vítimas da Covid-19 no cemitério Boa Vista, em Maruípe. Crédito: Vitor Jubini

pandemia da Covid deveria trazer à tona uma discussão muito importante: quanto custa uma vida humana. Claro, haverá sempre os amantes das frases feitas, que dirão que ela não tem preço, mas tem. Daria para calcular até nos centavos, se a questão fosse essa. Contudo, por não fazermos essas contas, a distribuição de esforços e recursos não é nada igualitária, democrática e nem mesmo racional.

Neste momento, estamos poupando um certo número de vidas, ao preço de recessão econômica e despesas com saúde pública, algumas superfaturadas. Fazemos questão de não calcular nada disso. Enquanto isso, em 2019, tivemos mais de 1 milhão e meio de casos de dengue, para não falar em zika e chikungunya, com baixa letalidade, reconheça-se, mas isso acontece todos os anos sem acender um debate tão intenso quanto o coronavírus, e não se tem notícia do desenvolvimento de vacinas.

Ainda há muitos brasileiros sem acesso a água tratada e, principalmente esgoto. Não é diferente na segurança pública: assassinatos e mortes no trânsito poderiam ser sensivelmente reduzidos se houvesse uma preocupação sistemática e investimentos nem tão altos assim.

Ao menos no plano legislativo, alguma coisa está sendo feita com o Marco Legal do Saneamento Básico. À parte discussões econômicas, políticas e ideológicas, o certo é que uma expansão rápida nesta parte de nossa infraestrutura poderia gerar milhões de empregos para mão de obra menos qualificada, a mais atingida neste momento.

Ao mesmo tempo, significaria levar serviços públicos a quem mais precisa deles, prevenindo doenças cuja persistência em pleno século XXI é inaceitável. Sempre lembrando que, neste momento, o Brasil e o mundo baixaram suas taxas de juros, tornando este um investimento muito atrativo.

Por outro lado, apesar de um penoso refluxo este ano, o ES vem conseguindo reduzir quase pela metade o número de homicídios que tinha alguns anos atrás. Isso foi fruto muito mais de estratégias bem montadas e mantidas apesar da alternância de governos, do que de gastos astronômicos.

Talvez não tenhamos escolha senão fazermos o que está sendo feito em relação ao coronavírus, mas seria bom que, quando essa pandemia passar, a saúde pública não volte ao esquecimento. Há muitas mortes a evitar, talvez até economizando recursos públicos, na medida em que o SUS deixe de ser sobrecarregado com endemias que não deviam mais existir, porque incompatíveis com o nosso grau de desenvolvimento econômico, ou com a violência que o Brasil merece não mais assistir. Black lives matter. More than we do recognize.

Artigo escrito com coautoria de Luiz H. A. Alochio, doutor em Direito e autor do livro "Direito do Saneamento"

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