Não, não foi nada combinado. Depois de dois artigos criticando operações policiais no Rio de Janeiro, aqui no Espírito Santo acontece algo bem diferente. Também combatendo uma facção criminosa, as polícias capixabas cumprem dezenas de mandados em área densamente povoada. Enquanto estas linhas são escritas, não há notícia de confrontos ou vítimas, apenas de pessoas presas.
Dirão que se trata de uma facção embrionária; respondo que os problemas crescem porque não cuidamos deles no começo. Argumentarão que as favelas cariocas são muito maiores e mais hostis; retruco que é exatamente essa a situação criada quando não se respeitam os cidadãos honestos que suportam vizinhos criminosos e têm de suportar também tiroteios ao pé de suas casas.
As próprias favelas não surgiram naturalmente no Rio de Janeiro. Elas foram produto da expulsão forçada das populações mais pobres para abrir espaço para obras de urbanização, como as atuais avenidas Getúlio Vargas e Rio Branco. E, se o Estado não sobe lá senão na forma de fuzis carregando policiais, muito de vez em quando, também não é de estranhar a pouca conexão com as autoridades públicas.
Também não é nenhuma coincidência ver que a Polícia Federal, ao mesmo tempo, deflagrou uma operação para combate à corrupção na Administração Pública. Se os próprios encarregados de fazer e cumprir as leis as puderem descumprir impunemente, quem restará com moral, interesse e capacidade operacional para nos livrar da baixa criminalidade? Segurança pública se faz assim: punindo primeiro os maiores, os mais poderosos, os mais perigosos e daninhos.
Em resumo, as polícias do Rio de Janeiro não se metem em operações perigosas e cheias de vítimas porque suas favelas são controladas pelo tráfico, mas justamente, ao contrário, o tráfico as controla porque lá o Estado não vem fazendo nada além de promover confrontos violentíssimos em meio urbano, sem nenhum objetivo estratégico perceptível, parecendo que age assim apenas para não se acusado de omissão. Não, o Espírito Santo não é um paraíso isolado do Brasil; temos nossos problemas, nossas deficiências, cometemos nossos erros, mas a verdade é que nos esforçamos para não seguir o mesmo caminho.