Sair
Assine
Entrar

Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Segurança pública

Operações contra o PCC no RJ: enxugando o iceberg com um lenço

Uma lição aprendida pelas forças armadas dos EUA: elas ganham as guerras, mas perdem a paz. Em outras palavras, foram capazes de esmagadoras vitórias no Oriente Médio, mas nunca conseguiram sufocar os movimentos terroristas e insurgentes

Publicado em 05 de Junho de 2022 às 02:00

Públicado em 

05 jun 2022 às 02:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

Naturalmente, foi polêmica a afirmativa, na semana passada, de que a operação em Vila Cruzeiro no Rio de Janeiro foi desastrada, tanto quanto a anterior, no Jacarezinho. Vale a pena esmiuçar isso um pouco, até porque parto sempre do pressuposto de que, ao final das apurações, chegaremos à conclusão de nenhuma das mortes ocorridas tenha sido criminosa. De fato, não pretendemos fazer nenhuma avaliação acerca da maneira como as intervenções foram executadas, já que isso é muito complexo e depende de investigação policial profunda e demorada.
O problema não está, ao menos exclusivamente, no nível operacional, no comportamento individual dos profissionais que participaram. No nível tático, não tem para onde fugir: se o objetivo era prender criminosos, não saiu nada como planejado e isso era fácil de antever pelas circunstâncias e pelo “teatro de operações”; se desejasse o resultado obtido, o planejador teria infringido o Código Penal. Quanto à estratégia, no entanto, o desastre é completo.
É bastante fácil perceber que não há utilidade prática em prender o traficante da ponta, que é carne de canhão, substituível em poucos minutos. Todavia, isso não significa que prender ou matar alguns cabeças de facção tenha efeito duradouro, uma vez que alguém também vai ocupar o seu lugar, mesmo que demore algum tempo e implique alguma violência interna na disputa pela liderança.
Por outro lado, obviamente não sabemos exatamente quantos criminosos integram o PCC, mas estimativas razoáveis falam em trinta ou quarenta mil membros somente no Rio de Janeiro. Se a estratégia pensada pelo governo estadual é neutralizar um por um, será preciso realizar umas mil operações semelhantes em um período muito curto, para que não dê tempo de se reorganizarem...
Não menos importante é uma lição aprendida pelas forças armadas dos EUA. Elas ganham as guerras, mas perdem a paz. Em outras palavras, foram capazes de recentes e esmagadoras vitórias em campos de batalha no Oriente Médio, porém nunca conseguiram sufocar os movimentos terroristas e insurgentes, e sempre terminam jogando a toalha, como acaba de acontecer no Afeganistão.
Segundo os próprios militares norte-americanos, todo talibã tem parentes e amigos; quando você mata um deles, outros dez, revoltados, entram para o grupo extremista. Fazer vítimas fatais é sempre um desastre em termos “geopolíticos”, mesmo que estritamente dentro da lei, mesmo apenas entre criminosos da mais alta periculosidade; se atingir um morador inocente, então, nem se fala. Também é péssimo o simples fato de levar tiroteios para dentro de uma região habitada.
Ora, esse completo e previsível fracasso tático e estratégico foi cometido à custa de “enrolar” muitos policiais, que agora passarão pelo desgaste de provar terem agido em legítima defesa; ao preço de desgastar as autoridades estaduais com o STF; com o ônus de infindáveis protestos dos defensores de direitos humanos; sacrificando o apoio da comunidade atingida etc. Se o objetivo sincero era combater facções criminosas, foi uma lambança.
A propósito, com uma população inferior a 7 milhões, El Salvador já realizou cerca de 30 mil prisões na sua guerra contra as “maras”. Vamos acompanhando os resultados de médio e longo prazos, os reflexos concretos na violência. Tomara que Nagib Bukele tenha descoberto o método mágico de fazer segurança pública.

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Viatura da Polícia Militar
Duas pessoas são baleadas durante confronto em bairro de Vila Velha
Imagem de destaque
Governo Lula quer evitar desgaste com fila do INSS e prevê zerar pedidos represados
Rede de gás canalizado da ES Gás
ES Gás alcança marca de 100 mil consumidores e acelera expansão

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados