Naturalmente, foi polêmica a afirmativa, na semana passada, de que a operação em Vila Cruzeiro no Rio de Janeiro foi desastrada, tanto quanto a anterior, no Jacarezinho. Vale a pena esmiuçar isso um pouco, até porque parto sempre do pressuposto de que, ao final das apurações, chegaremos à conclusão de nenhuma das mortes ocorridas tenha sido criminosa. De fato, não pretendemos fazer nenhuma avaliação acerca da maneira como as intervenções foram executadas, já que isso é muito complexo e depende de investigação policial profunda e demorada.
O problema não está, ao menos exclusivamente, no nível operacional, no comportamento individual dos profissionais que participaram. No nível tático, não tem para onde fugir: se o objetivo era prender criminosos, não saiu nada como planejado e isso era fácil de antever pelas circunstâncias e pelo “teatro de operações”; se desejasse o resultado obtido, o planejador teria infringido o Código Penal. Quanto à estratégia, no entanto, o desastre é completo.
É bastante fácil perceber que não há utilidade prática em prender o traficante da ponta, que é carne de canhão, substituível em poucos minutos. Todavia, isso não significa que prender ou matar alguns cabeças de facção tenha efeito duradouro, uma vez que alguém também vai ocupar o seu lugar, mesmo que demore algum tempo e implique alguma violência interna na disputa pela liderança.
Por outro lado, obviamente não sabemos exatamente quantos criminosos integram o PCC, mas estimativas razoáveis falam em trinta ou quarenta mil membros somente no Rio de Janeiro. Se a estratégia pensada pelo governo estadual é neutralizar um por um, será preciso realizar umas mil operações semelhantes em um período muito curto, para que não dê tempo de se reorganizarem...
Não menos importante é uma lição aprendida pelas forças armadas dos EUA. Elas ganham as guerras, mas perdem a paz. Em outras palavras, foram capazes de recentes e esmagadoras vitórias em campos de batalha no Oriente Médio, porém nunca conseguiram sufocar os movimentos terroristas e insurgentes, e sempre terminam jogando a toalha, como acaba de acontecer no Afeganistão.
Segundo os próprios militares norte-americanos, todo talibã tem parentes e amigos; quando você mata um deles, outros dez, revoltados, entram para o grupo extremista. Fazer vítimas fatais é sempre um desastre em termos “geopolíticos”, mesmo que estritamente dentro da lei, mesmo apenas entre criminosos da mais alta periculosidade; se atingir um morador inocente, então, nem se fala. Também é péssimo o simples fato de levar tiroteios para dentro de uma região habitada.
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Ora, esse completo e previsível fracasso tático e estratégico foi cometido à custa de “enrolar” muitos policiais, que agora passarão pelo desgaste de provar terem agido em legítima defesa; ao preço de desgastar as autoridades estaduais com o STF; com o ônus de infindáveis protestos dos defensores de direitos humanos; sacrificando o apoio da comunidade atingida etc. Se o objetivo sincero era combater facções criminosas, foi uma lambança.
A propósito, com uma população inferior a 7 milhões, El Salvador já realizou cerca de 30 mil prisões na sua guerra contra as “maras”. Vamos acompanhando os resultados de médio e longo prazos, os reflexos concretos na violência. Tomara que Nagib Bukele tenha descoberto o método mágico de fazer segurança pública.