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Violência

Piedade seletiva, uma contradição moral

Nossa reação não é a mesma se atingem algum parente, amigo ou vizinho. A nossa mente nos prega algumas peças também quando a vítima é um desconhecido: quanto maiores as nossas semelhanças, mais a questão nos interessa

Publicado em 22 de Maio de 2022 às 02:00

Públicado em 

22 mai 2022 às 02:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

A pedidos, retomo de onde parei na coluna anterior: a piedade seletiva. Não é nenhuma novidade, nem algo de se estranhar: é da natureza humana ter empatia, mas também a ter em maior ou menor medida quanto mais nos identifiquemos com o objeto desse sentimento.
Por exemplo, temos muito maior apego por alguns animais que por outros. Geralmente temos simpatia pelos bichos mais inteligentes, especialmente se conseguimos manter algum tipo de comunicação com eles. Se nos lembrarem bebês humanos, então...
Isso, no entanto, nos leva a algumas atitudes um tanto contraditórias, se formos pensar bem: por que achamos simpática a ideia de sacrificar animais de uma espécie para alimentar os de outra? No limite, pulgas e carrapatos também são criatura de Deus, mas nós separamos o mundo em bichinhos bons e bichinhos maus. Uns mais bonzinhos ou malvados que outros.
Não é diferente entre seres humanos. Vamos examinar o caso dos refugiados ucranianos ou, para ser mais específico, as manifestações involuntárias de discriminação racial explícita. Não foram poucos os europeus que afirmaram ser necessário dar proteção a seus vizinhos e receber de braços abertos quem fugisse do conflito naquele país, porque não era uma guerra como no Afeganistão, no Iraque ou na Síria. Ali eram “pessoas brancas e de olhos azuis” sendo mortas todos os dias... 
É assim, em casos de violência criminosa, arbitrariedades de alguma autoridade pública ou outra injustiça, ou mesmo de catástrofes naturais. Nossa reação não é a mesma se atingem algum parente, amigo ou vizinho. Até aí, era de esperar, mas a nossa mente nos prega algumas peças também quando a vítima é um desconhecido: quanto maiores as nossas semelhanças, mais a questão nos interessa. A sensação de que “poderia ter sido eu” fala muito forte. Por outro lado, se é uma pessoa de outro grupo étnico ou social, a gente até diz “que absurdo”, porém muda de assunto e dificilmente nos mobilizamos justamente pelos que mais precisariam.
Sim, é uma contradição moral terrível. Desenvolvemos uma empatia inversamente seletiva, muito menos profunda, menos engajada, menos duradoura exatamente para com aqueles que mais necessitam, os mais fracos, os que não têm ninguém por eles. A gente desliga a televisão e eles desaparecem. Apareceram a pizza e, mais importante, os brownies.

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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