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Segurança pública

O "ouro de tolo" do combate à criminalidade

Estratégias adotadas em um país da América Central lembram um pouco as de outra nação em que elas também não funcionam

Públicado em 

29 mai 2022 às 02:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

Prisão, algemas
Prisões sem seletividade não dão resultado Crédito: Shutterstock
Esta semana está difícil escolher um só assunto. Nos EUA, a política de liberação das armas permite mais um tiroteio em escolas, vitimando crianças e professores, para não falar na avó do perpetrador. Em São Paulo, pai mata as filhas. E, claro, no Rio de Janeiro, as polícias fazem mais uma desastrada incursão em uma favela, matam um monte de suspeitos e uma inocente, mas não conseguem capturar ninguém vivo. E, claro, culpam o STF pela própria lambança. Acho que vou me inspirar neste último caso. Embora pareça um “vale a pena ver de novo” do Jacarezinho, tem sempre algo novo a aprender.
Em El Salvador, o lunático presidente Nagib Bukele resolveu investir grande parte das reservas nacionais em bitcoins e até os transformou em moeda nacional. Se o povo acredita que ele fez isso por confiar em criptoativos como investimento, quem sou eu para duvidar... Em todo caso, o país sofreu um enorme prejuízo e entrou em uma crise econômica épica. Para dar outro assunto à população, o encantador de serpentes que assumiu a cadeira presidencial resolveu prender todos os integrantes das “maras” grupos criminosos em processo de organização, muito semelhantes, em alguns aspectos, às nossas “facções”.
Foi decretado estado de exceção constitucional e se aprovaram leis extremamente rígidas, permitindo que alguém seja condenado a muitos anos de prisão por qualquer tipo de relacionamento com as maras, inclusive apenas fazer pichações ou cantar músicas de exaltação ao crime...
Não dou ouvidos a teorias conspiratórias sustentando que a série de homicídios praticados pelas maras em poucos dias seria resultado da ruptura de um acordo do próprio Bukele com a cúpula dessas organizações, mas é inegável que a estratégia adotada para enfrenta-las é pouco criativa.
Como os critérios foram elastecidos além de qualquer lógica, vêm sendo feitas, com facilidade, milhares de prisões a cada dia, sem nenhuma seletividade. Vez por outra se apanha alguém do médio escalão, mas as cadeias estão sendo superlotadas, mesmo, é de criminosos irrelevantes e, claro, um ou outro inocente, enquanto os chefes ficam dentro da piscina respirando de canudo, ou mesmo dão um tempo em países vizinhos.
Como não há lugar para todos, Bukele declarou que não terão nem sequer onde sentar. Estão recebendo uma rala porção de feijão, mas o presidente ameaça cortar até essa ração de Auschwitz. No cálculo político, isso deveria inflamar os defensores de direitos humanos, mas agradar profundamente a população cansada de violência.
O problema é que, depois de dois meses, precisamos inventar outra expressão para o lugar de “superlotação carcerária”, mas os criminosos só “dera um tempo”, a criminalidade não desapareceu, as reservas financeiras tampouco foram recuperadas e a população começa a desconfiar... O cara tem que ser um equilibrista. Ainda bem que coisas assim só acontecem em republiquetas de banana na América Central.

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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