Décadas atrás, o diretor do então chamado “manicômio judiciário” me disse que a rotina dele era administrar as carências; em resumo, decidir se faltaria comida ou medicamento para os internos... As coisas mudaram, desde então, mas não completamente. Ao que parece, tanto o eleitor encara como supérfluo todo e qualquer gasto com o sistema carcerário como os candidatos interpretam que o tema não rende votos, pois esse debate nunca surge.
Já andamos falando sobre a explosiva combinação entre superlotação e falta de policiais penitenciários, mas isso só cresce exponencialmente se lembrarmos da degradação de uma infraestrutura física que era muito moderna 15 anos atrás. É preciso entender que a automação das portas das celas não é um luxo como esses que, sem pensar, consideramos indispensáveis em nossos automóveis: uma boa composição arquitetônica permite vigiar melhor e mais presos com menos pessoal e menos riscos.
Por outro lado – e também já tratamos disto – um ambiente de trabalho adequado é importante para a motivação dos profissionais e, no limite, até para o seu bem-estar psíquico. Por fim, mas não menos importante, é necessário constatar – apenas admitir, não importa se gostamos ou não – que fica impossível conter uma multidão de presos se eles forem mantidos em condições insuportáveis.
A sociedade é quem paga – e paga muito caro – pelo equívoco de se prestar atenção apenas ao ato de prender alguém, esquecendo o assunto depois. Basta uma rebelião para destruir milhões em patrimônio público e colocar em risco a vida de reféns. Fugas ainda são raras, mas aumentaram muito recentemente e, o mais importante, o controle sobre as atividades dos internos é insuficiente. Já nem vamos falar de ressocialização, pois o Brasil nunca tentou isso a sério, mesmo vendo que dá certo em muitos países.
Em resumo, é isto: a população acha que não tem problema faltar de tudo nos presídios. Os políticos nem sempre se dão conta disso, tampouco. Alguns abnegados profissionais vão conduzindo como podem as prisões, mas é preciso reconhecer prejuízos cotidianos e o risco de um colapso sem aviso prévio. Ou, melhor, o aviso está dado.