Uma leitora incomodada com o simples fato de se discutir a efetividade até hoje alcançada na repressão criminal às drogas mandou uma mensagem categórica: bastaria vigiar nossas fronteiras... Bem, essa pelo menos não fez ameaças nem usou palavras de baixo calão, mas este é o clima que surge sempre que se tenta provocar alguma racionalidade sobre o tema. Deve doer em alguma parte do corpo.
Talvez pudéssemos responder simplesmente que os EUA e nenhum outro país teve o menor sucesso em barrar o tráfico. Mesmo em portos, aeroportos e vias terrestres com vigilância alfandegária, é humanamente impossível revistar todos os passageiros – fora o terrível incômodo que isso provocaria a quem não está fazendo nada de errado. Além disso, traficantes são ousados e criativos: alguns, por exemplo, engolem sacos contendo cocaína e a maioria passa tranquilamente por qualquer exame normal; outros conseguem colocar a substância no avião do Presidente da República.
De qualquer forma, traficantes não fazem a menor questão de viajar de avião. Vão de trem, ônibus, navio, submarino, bicicleta, a cavalo ou a pé. Mesmo quem faltou a todas as aulas de geografia tem uma ideia da dimensão do território brasileiro. São 17 mil km de fronteira seca, a maior parte quase inabitada e com os mais diversos biomas e relevos.
Em alguns lugares, floresta fechada; em outros, basta atravessar a rua para trocar de país. São quase 7,5 mil km de costa marítima. Ainda que fosse materialmente possível manter um posto de vigilância a cada 100 metros 24h por dia, precisaríamos de um contingente de 5 milhões de policiais só para isso, e contar que nenhum deles seja desatento, corrupto ou durma em serviço...
Por fim, a cocaína é a única substância que não vem sendo produzida fora do seu local de origem, mas isto apenas porque jamais foi necessário ou, em outras palavras, porque fabricá-la nos países andinos e exportá-la nunca foi um problema sério. O Afeganistão era o maior produtor da papoula, de onde se extraem o ópio e seus derivados. O Taliban foi o único que conseguiu incomodar o suficiente para transferir parte para países vizinhos ou mesmo para o México, mas tudo voltou com o domínio norte-americano do país, criando uma superoferta e a queda nos preços.
Não estamos realmente falando do tamanho do Brasil e da facilidade das drogas em atravessar fronteiras. O leitor sabe muito bem de tudo isso. O que queremos destacar é como a irracionalidade e os processos de autoilusão transformaram o enfrentamento ao tráfico, para muitos, em uma espécie de religião fundamentalista suicida. Soluções fracassadas são substituídas por doses ainda maiores delas mesmas, ou por saídas mágicas. Traficar é fácil; difícil é fazer as pessoas discutirem a sério esse problema.