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Segurança Pública

Prender mais traficantes é só aumentar o tamanho da toalha

Em resumo, prisão é tão inútil quanto apreender suas mercadorias. Temos que pensar em outras estratégias, porque essas mais óbvias a experiência já mostrou serem completa e previsivelmente ineficazes

Publicado em 28 de Novembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

28 nov 2021 às 02:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

Já vimos que atuar no sentido de apreender drogas não têm qualquer efeito positivo: a disponibilidade não é afetada nem um instante sequer, uma vez que elas são produzidas prevendo uma “quebra”, isto é, uma proporção mais ou menos constante da “mercadoria” que não chega ao consumidor final. Vimos também que é ilusório o “prejuízo” sofrido pelo tráfico, uma vez que essas substâncias são fáceis e muito baratas de produzir. Então, em vez de focar na quantidade de drogas apreendidas, talvez seja melhor encarcerar o maior numero possível de traficantes.
Para assaltar alguém, não é necessário contar com a vontade da vítima, mas vender drogas só é possível diante de uma demanda, e esta é limitada. Se novos traficantes quiserem se estabelecer, terão que dividir a clientela com os atuais, e todos sabemos que isso costuma acabar mal. Portanto, as vagas são limitadas e “autorreguladas”, ao passo que os candidatos, não. Há sempre adolescentes mais ou menos enfileirados em torno das “bocas”, esperando uma oportunidade de “contratação”. Tão logo a viatura deixa o local em busca de uma delegacia, o tráfico é retomado e o preso, substituído.
Talvez o problema estivesse nas penas muito brandas, e então elas foram drasticamente aumentadas. Doce ilusão... Não há estatísticas precisas a respeito, mas é confiável a estimativa de que a sobrevida média depois que se entra para o tráfico está entre 3,5 e 4 anos, metade desse tempo na cadeia.
Certamente os traficantes não fazem estudos acadêmicos sobre o tema, mas sabem perfeitamente dessa realidade e fazem uma escolha consciente, ainda que discutível, pelos benefícios imediatos. Ora, para quem já aceitou a morte certa pela mão de rivais ou comparsas, o cárcere é pouco mais que um intervalo tedioso entre assassinar e ser assassinado.
Se nos déssemos ao trabalho de conversar com esses jovens, veríamos que a punição, por mais rigorosa que seja, não é sequer levada em consideração. Por isso o tráfico só aumentou, mesmo que, nos últimos 20 anos, tenhamos multiplicado por dez o número de encarcerados.
Em resumo, prender os traficantes é tão inútil quanto apreender suas mercadorias. Temos que pensar em outras estratégias, porque essas mais óbvias a experiência já mostrou serem completa e previsivelmente ineficazes, além de extremamente caras. Quando se tem a certeza de estar enxugando gelo, não faz o menor sentido jogar fora tempo e dinheiro público para enxugar mais rápido.

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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