Só uns poucos (malucos) acham que substâncias psicoativas não são extremamente perigosas. Ainda que algumas delas possam ter até efeitos positivos quando usadas sob orientação médica, há praticamente um consenso no sentido de que a humanidade enfrenta graves problemas decorrentes do seu uso abusivo.
Contudo, já não temos unanimidade sobre qual seria a melhor estratégia para enfrentá-las. Uma das questões é que pouco nos servimos da ciência para isso. Sim, é isso mesmo: como a humanidade, nos últimos cem anos, vem apostando todas as suas fichas na repressão criminal, tolhemos o trabalho de médicos e outros cientistas.
Por exemplo, os laboratórios da Polícia Técnica e Científica/ES é um dos poucos na América Latina que não apenas identifica a presença de cocaína, mas também faz a sua dosagem, ou seja, mede a sua concentração, por exemplo, no sangue de certa pessoa envolvida em um acidente automobilístico.
Acho que não é necessário frisar a importância disso para as investigações criminais. Para alcançar esse feito, não basta ter equipamentos de ponta. Cada exame consome um insumo denominado “padrão de cocaína”, isto é, uma dose microscópica e padronizada de cocaína, que só é produzida por laboratórios de altíssima tecnologia nos EUA.
Pois bem, a Secretaria de Segurança, em certa ocasião, fez a importação desse insumo em seu próprio nome, mas o insumo ficou retido pela alfândega, apenas porque os formulários continham aquela palavra maldita. Foi necessário que o secretário e subsecretários fossem pessoalmente a diversos órgãos públicos e mais de um ano de esforço para conseguir o desembaraço aduaneiro. Enquanto isso, nosso laboratório funcionou com material emprestado por outras polícias...
Se até os laboratórios da polícia encontram obstáculos, imagine-se o que passam os cientistas nas universidades. Fazer pesquisas científicas sobre drogas – seus malefícios, eventuais benefícios, meios de prevenção e tratamento etc. – é infinitamente mais difícil do que sobre qualquer outra doença ou mesmo para desenvolver um novo cosmético.
Também as ditas ciências humanas – sociologia, psicologia, antropologia, economia – enfrentam obstáculos para estudar esse fenômeno social que é o consumo de psicoativos, o funcionamento das redes de produção e distribuição etc. Os pacientes nem sequer querem admitir que são usuários, há limites exageradamente estreitos para experiências científicas, dificuldade de acesso aos meios necessários e por aí vai.
O resultado é óbvio: a esta altura poderíamos dispor de tratamentos muito mais eficazes para os dependentes químicos; poderíamos entender melhor o que leva as pessoas ao consumo abusivo de drogas lícitas e ilícitas, ou o que convence os jovens a se tornarem traficantes e por aí vai.
Na verdade, todo mundo quer resolver o problema, mas a humanidade não faz e não permite que se faça muito para entendê-lo direito. “Se conhece o inimigo e a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Caso se conheça, mas não ao inimigo, por cada vitória sofrerá uma derrota. Se não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, irá sucumbir todas as vezes.” (Sun Tzu)