Já que começamos a falar do emprego da tecnologia em favor da segurança pública, é importante aprofundar esse tema, que nem de longe é tão simples quanto parece e certamente mereceria muitas colunas sem nunca o esgotar. De fato, não basta adquirir e instalar alguma geringonça moderninha e ir para casa enquanto ela faz todo o serviço.
Começa que nem tudo que é oferecido pelo mercado à administração pública tem potencialidades que justifiquem o seu custo, mas, além disso, há muitos outros aspectos que precisam ser bem gerenciados. Comecemos falando dos operadores humanos.
É perfeitamente possível desenvolver métodos para mecanizar e automatizar atividades humanas, especialmente as repetitivas, mas em algum momento o ser humano vai precisar entrar no processo. Ora, antes de mais nada, é preciso capacitar o operador dos recursos tecnológicos, ou as potencialidades destes serão limitadas pelo uso precário ou mesmo indevido, mas isso não encerra o tema.
Os tempos passam e, com eles, as modas e certos costumes, mas o ser humano por baixo da roupa de cada período não é muito diferente, com todas as suas qualidades e defeitos. Século após século, não mudou a proporção de pessoas mais e outras menos honestas, inteligentes, atentas, dedicadas ou competentes, sendo que ninguém é perfeito mesmo em um determinado aspecto.
É como essas novelas de época, em que mudam os cenários, o figurino e o vocabulário, mas a trama continua sendo a mesma: “João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história”. (Carlos Drummond de Andrade, poema “Quadrilha”, com o perdão do trocadilho).
A maior parte dos novos recursos precisa ser operada por seres humanos e mesmo aqueles mais autônomos não realizam prisões, ao menos por ora. No final, eles apenas fornecem informações importantes e, em última análise, “pagam” missões aos policiais.
Os sistemas inteligentes e interligados de câmeras com capacidade de reconhecer rostos ou placas de automóveis apenas identificam que um possível alvo entrou no seu alcance, soam o alarme e indicam sua última localização. São os policiais que decidem o que fazer com essas informações, que, aliás, também não são isentas de falhas, especialmente quando se trata de identificar pessoas suspeitas.
Portanto, antes de mais nada, instalar uma tecnologia implica automaticamente investir também na formação do policial, para que ele possa extrair o máximo do que a ciência proporciona de novo. Por outro lado, é preciso sempre contar com a possibilidade de que o operador tenha desempenhos surpreendentemente bons, mas também, às vezes, cometa as mesmas falhas grotescas a que estaria sujeito sem aquele equipamento, ou até com um risco aumentado, por exemplo quando se confia exageradamente no reconhecimento facial.
Tecnologia não dispensa a gestão de pessoas, pelo contrário, torna-a ainda mais importante, no final das contas, porque a inteligência artificial não resolve a burrice natural.