Depois do trágico e cinematográfico atropelamento de um motociclista na Terceira Ponte, volta, por alguns dias, para logo desaparecer novamente, a discussão sobre a segurança e a repressão aos delitos de trânsito. Sim, o tráfego de veículos também é uma questão de segurança pública, mas devemos tomar cuidado com a promessa de que leis ou sua aplicação mais rígida serão a solução mágica para o problema.
A quantidade de veículos nas ruas se multiplicou nas últimas décadas, o que por si só aumenta a probabilidade de acidentes. Custos e maior agilidade no trânsito incentivam a escolha por motocicletas, que deixam seus usuários mais expostos. Em outras palavras, não é assim tão simples afirmar se a educação do brasileiro para o trânsito está piorando ou melhorando.
Outro detalhe é que pequenas infrações podem se desdobrar de maneira inesperada, gerando acidentes terríveis. Da mesma forma, as menores distrações ou erros, que qualquer um de nós está sujeito a cometer ao dirigir, podem resultar em consequências da mais alta gravidade. Isso implica que a maioria de nós comete falhas cotidianas, consciente ou inconscientemente, tal como uma distração momentânea ou fechar os olhos por causa de um espirro, e isso só não resulta em tragédia porque não fomos escolhidos pelo azar naquele dia.
Tudo isso para ressaltar que a segurança no trânsito é uma discussão que não pode entrar e depois sair da ordem do dia: precisa ser uma discussão permanente. Por outro lado, o problema não tem solução fácil, já que milhões de pessoas se deslocam todos os dias. Também não será resolvido por medidas draconianas episódicas, só para agradar a torcida.
Ações de conscientização, educativas e de pequena repressão administrativa (leia-se: multas) mostram muito mais potencial de amenizar a violência no trânsito do que o linchamento público de um ou outro motorista que às vezes nem cometeu um ato tão grave em si mesmo, apesar da gravidade das consequências.
Diria mais: melhorias concretas, mesmo, somente serão obtidas mediante gestão do tráfego, inclusive o incentivo ao uso do transporte coletivo. Se o número de veículos nas ruas continuar crescendo, é difícil que a quantidade de acidentes diminua, porque as falhas humanas não são a única variável na equação e, de qualquer forma, não são tão fáceis de corrigir ou prevenir.
Por fim, um detalhe que à primeira vista não faria tanta diferença pode ser crucial: um seguro obrigatório de verdade, que cubra despesas de tratamento e assegure indenizações decentes quando houve morte ou invalidez não impedem os incidentes (em um primeiro momento), mas ajudam muito a remediá-lo e, indiretamente, servem como incentivo à escolha do transporte coletivo. Não há maneira mais segura de escoar os milhões de cidadãos que precisam se deslocar por nossas cidades.
Resumindo: populismo e soluções fáceis, para variar, não contribuem em nada. Discussões acaloradas, mas muito curtas, também não apontam os melhores caminhos. Para variar, racionalidade, razoabilidade e meditações amadurecidas são o único caminho para definir políticas públicas eficientes, também no campo da segurança no trânsito.