Como comentado aqui semana passada, além do problema de fiscalização criado para os órgãos de segurança pública, a aquisição de armas de fogo por particulares cria um monte de problemas e responsabilidades para o seu feliz proprietário. Uma grande parte vem mesmo que ela nunca seja utilizada nem mesmo levada para passear, mas, se resolverem disparar contra alguém, ai de ti, Copacabana...
Quando se compra um brinquedo, é possível simplesmente jogá-lo fora ou até vendê-lo, se ele ainda tiver algum valor de mercado. Já quando se arranja um animal de estimação, não se pode mais simplesmente dizer para os filhos que ele foi “levado para uma fazenda”.
Mesmo que se arrependa, o feliz tutor de um pet agora é responsável por tratar dele, e bem, até o final, a não ser que encontre alguém para transferir esse cuidado. Com armas de fogo é bem pior, porque, é claro, ela não pode ser descartada, tampouco transferida para qualquer pessoa, sem muita burocracia.
E o que acontece se o seu cãozinho fugir ou for furtado? Nada. Contudo, apesar da frouxa fiscalização na aquisição e de praticamente nenhuma posterior, queira ou não o proprietário de uma arma de fogo, até prova em contrário, assume a responsabilidade sobre tudo o que for feito dela. Tem que guardá-la com todo cuidado e ficará eternamente sob suspeita se ela for extraviada, não interessa por qual motivo ou forma.
Também não existe isso de comprar e guardar. Embora a fiscalização posterior, repita-se, seja quase nenhuma, quem tem uma arma de fogo precisa se manter sempre em condições de manuseá-la e, se for o caso, utilizá-la da maneira correta. Ou seja, tem que seguir treinando e se reciclando, precisa mantê-la limpa e funcionando direito etc.
Qualquer disparo, mesmo acidental e até sem atingir ninguém pode gerar uma enorme dor de cabeça. E, diga-se de passagem, incidentes desse tipo são mais comuns que a utilização em legítima defesa. Em outras palavras: se não se mantiver apto ou não for muito cuidadoso com a arma, sua guarda e seu manuseio, a probabilidade de que ela venha a atingir alguém sem querer é muito maior do que com a intenção de autodefesa. Na linha de frente estão você e sua família.
Vejam que o proprietário ainda nem tirou a arma do cofre e já está com encargos enormes nas costas. Agora suponhamos que finalmente chegue o dia em que ela será realmente utilizada para a finalidade com que a compraram: matar alguém em legítima defesa.
Aí tem dois problemas. O primeiro é que criminosos geralmente agem com o fator surpresa e tudo o mais a seu favor; as chances são contra a vítima, mesmo armada. Na verdade, como não há nada que um criminoso mais deseja que armas de fogo, essa pessoa será alvo preferencial de assaltantes, aumentando o seu risco pessoal, em vez de o diminuir.
Suponhamos, no entanto, que a vítima consiga reagir com sucesso, mate o bandido e agora esteja se sentindo um herói. Bem, essa sensação vai durar pouco, porque um inquérito policial terá de ser instaurado e, frequentemente, a legítima defesa não está tão bem caracterizada assim. É, uma arma pode livrar você de um problema e arranjar outro muito pior. Na melhor das hipóteses, o inquérito será arquivado, mas pouco custa para o super-homem ir a júri...
Um policial é obrigado a intervir diante de crimes mesmo que esteja de folga, então não tem muita escolha a não ser andar armado. Juízes e promotores, embora excepcionalmente, podem estar expostos a tentativas de assassinato, então talvez se justifique fazer o mesmo, não para se defender de roubos, quando podem simplesmente entregar seus bens materiais sem complicar o problema, mas para protegerem a própria vida, quando será tudo ou nada. Fora disso, legal ou ilegal, não aconselho ninguém a ter um brinquedinho tão complicado.