Nesta semana tivemos a notícia de como pessoas sem ligação direta com a prática de crimes podem estar associadas a facções criminosas. Isso acabou trazendo para os jornais, também, como essas facções são muito mais estruturadas do que podemos pensar. A coluna de hoje, claro, não é sobre a culpa ou inocência dos acusados, mas sobre a diferença essencial entre uma organização criminosa e uma grande quadrilha.
As quadrilhas tradicionais são apenas a soma de seus integrantes. É um bandido ao lado do outro. Quando um deles é preso, morto ou abandona o crime, a quadrilha se desestrutura. Dependendo do baque, ela tem que se reorganizar do zero, começar tudo de novo.
Já as organizações criminosas, das quais as facções são uma espécie, transcendem completamente seus integrantes. Já não existe nenhum integrante original das mais antigas delas, e elas estão aí de pé, porque elas não são apenas um amontoado de gente com más intenções. Organizações criminosas são verdadeiras instituições, com órgãos e setores internos, contadores, advogados, gerentes e altos dirigentes. Elas são muito mais do que a soma das partes. Há modos de relacionamento e funcionamento, estruturas internas que asseguram a continuidade mesmo na falta de quem desempenhava originalmente determinada função.
Elas têm meios permanentes de recrutamento, mecanismos internos de solução dos conflitos entre membros, processos de promoção – em muitos casos, um verdadeiro plano de carreira. Ninguém fica muito tempo sem ser substituído e frequentemente há medidas para assistência daqueles que perdem a vida ou vão presos, ou pelo menos para suas famílias. Na divisão de tarefas, nem todos necessariamente praticam crimes, ao menos de maneira direta.
No caso específico das facções criminosas, ao menos das que merecem essa classificação, elas surgiram como verdadeiros sindicatos de presos que, com o passar do tempo, acabaram tendo integrantes em liberdade. Já as organizações do tipo mafioso surgiram no processo inverso: elas associaram criminosos livres que eventualmente iam presos. Enquanto os faccionados são intensamente rejeitados pela maior parte das outras pessoas, mafiosos sempre foram muito respeitados e mesmo bem-vistos pela sociedade.
Facções criminosas continuam com suas raízes profundamente entranhadas no nosso péssimo sistema carcerário e uma de suas principais razões de existir é continuar defendendo o interesse dos presos (claro, não importa se esses têm alguma razão).
Por isso, ações policiais como esta “Operação Sintonia” são muito mais estratégicas do que aquelas cinematográficas e arriscadíssimas incursões em áreas dominadas pelo tráfico. Seus efeitos práticos são muito mais intensos, profundos e duradouros, com menos exposição dos policiais e de transeuntes, menos traumas para as comunidades pobres e menos curto para o poder público.
Obviamente os suspeitos ainda não foram julgados e não vamos entrar no mérito das acusações, mas o caminho é esse: atacar as estruturas invisíveis das facções, não as franjas mais expostas e incômodas, mas descartáveis e imediatamente substituíveis.