Nunca imaginei que os brasileiros deixariam o futebol de lado para estudar tão a fundo as complicadas questões geopolíticas entre Israel e os palestinos. Parece que todo mundo formou uma opinião abalizada, pena que cada amigo meu tem uma diferente. Bem, eu que não sou besta, vou continuar aqui no ar condicionado, falando sobre algo de que não entendo, mas, apesar de enormes diferenças, as questões do Oriente Médio trazem algumas lições sobre a segurança pública brasileira.
Como ninguém ignora, a população local, de maioria muçulmana, não aceitou a criação do Estado de Israel, como tampouco os países vizinhos, igualmente de maioria islâmica. Agora, o país está comprometido em varrer o Hamas da face da Terra, e é aqui que encontramos um certo ponto de conexão, pois, no Brasil, também tentamos combater o PCC, o Comando Vermelho etc., assim como milícias.
Não estou de maneira alguma equiparando nossas organizações criminosas a grupos extremistas islâmicos, nem fazendo qualquer juízo de valor sobre como atuam. Também não pretendo dizer como Bibi deve conduzir seu país, muito menos ensinar os israelenses a escolher seus governantes. Contudo, já que eles estão tentando atear fogo às barbas de seus vizinhos, não custa a gente botar a nossa de molho e tirar lições do que vem acontecendo por lá há décadas.
Facções criminosas, milícias e grupos jihadistas têm pelo menos uma coisa em comum: não são simples amontoados criminosos ou guerrilheiros/terroristas enfileirados um do lado do outro, mas organizações. Você pode enfraquecê-las se conseguir matar ou prender quase todos os seus integrantes em uma única vez, mas mesmo assim elas ressurgem depois de um tempo maior ou menor.
E elas não apenas não se ressentem de prisões ou mortes em quantidades menores, mas até se fortalecem, pois cada jihadista morto tem parentes e amigos que ficam revoltados e acabam engrossando as fileiras do Hamas. Pior ainda quando os mortos não fazem parte da organização, que ganha apoio maciço da população e de outros países. Já entre nossos criminosos, essas mortes e prisões só fazem acelerar a carreira dos traficantes, tornando-as ainda mais atraentes para jovens desorientados.
Israel enfrenta um desafio adicional: guerra santa, antissemitismo e antissionismo não são organizações, mas ideias. Ideias morrem, sim, mas raramente a tiros. Desde sua criação, Israel venceu inúmeras guerras, algumas de maneira surpreendente e até acachapante; mas nunca conquistou a paz. Já o Brasil vem colecionando operações policiais caras, de resultados no mínimo discutíveis e em escala obviamente insuficiente para sequer incomodar nossas organizações criminosas.
Se você trata com desconfiança e agressividade grandes contingentes populacionais, é natural que eles desenvolvam mecanismos de resposta, e um dos mais óbvios é o surgimento de organizações sociais, formalizadas ou não, com bons ou maus propósitos e métodos de ação. Talvez essas suspeitas fossem inteiramente justificadas desde o início, mas o fato é que essa estratégia é uma profecia autorrealizável: haverá conflito e perdas para todo mundo. E a tendência é que essas sublevações sejam intermináveis.
De um modo geral, todas as estratégias diretas são muito mal sucedidas nesses casos. O confronto nunca é tão curto quanto cada lado sonha, nem as baixas são poucas. Abordagens indiretas são muito mais promissoras e menos custosas. O problema é que são sempre contra o senso comum.