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É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

O bicho é o homem... que ataca um morador de rua

Não sei se o leitor se lembra do líder pataxó Galdino, morto incendiado na rua, muitos anos atrás. Os autores tentaram explicar que não sabiam que se tratava de um indígena, que o confundiram com... um mendigo

Publicado em 02/08/2020 às 05h00
Atualizado em 02/08/2020 às 05h00
 Ensaio fotográfico com foco nos detalhes da arquitetura de época, ação do tempo e o descaso com alguns prédios no Centro Histórico de Vitória. Na foto, um homem em situação de rua dorme na calçada do antigo prédio do Arquivo Público, hoje tombado pelo Conselho Estadual de Cultura
Morador de rua no Centro de Vitória. Crédito: Fernando Madeira

Imagine-se o estranhamento, o choque de culturas quando os primeiros portugueses desembarcaram no Brasil, quando houve o contato inicial com os nossos habitantes originais. É difícil saber quem estava com mais medo do outro e, ao mesmo tempo, todos sentiam que não havia escolha a partir daquele momento histórico. Bem, quando Cabral apareceu por aqui, eles terminaram dançando com os índios ao som de uma sanfona. Os conflitos vieram muito depois.

"Vi ontem um bicho na imundície do pátio, catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa, não examinava nem cheirava: engolia com voracidade. O bicho não era um cão, não era um gato, não era um rato."

“Pessoas em situação de rua” é um eufemismo e também devemos evitar generalizações: é verdade que alguns são dependentes químicos, mas outros, não. Ao contrário do imaginário popular, nem todos perderam seus vínculos familiares ou sofrem de algum distúrbio psiquiátrico e, afora o eventual consumo de entorpecentes, só uma pequena minoria tem qualquer envolvimento em atos ilícitos.

A visão que nos oferecem é triste e, admitamos, desagradável e um tanto assustadora para quem vive uma realidade inteiramente diferente, mas nenhum deles tomou parte escândalos milionários de corrupção; a maioria jamais nem sequer furtou para comer, contentando-se com o que recebem nos semáforos.

Nada justifica que os façamos alvo de nada mais que compaixão. Todavia, não passa muito tempo sem que a imprensa denuncie ataques homicidas contra moradores de rua, a tiros, mediante envenenamento de bebidas e alimentos ou mesmo, como alguém parece achar divertido, ateando fogo àqueles que dormem.

Não sei se o leitor se lembra do líder pataxó Galdino, morto por incêndio com combustíveis, muitos anos atrás. Os autores tentaram explicar seu ato dizendo que tudo não passou de uma “brincadeira” de jovens mal comportados, e que não sabiam que se tratava de um indígena, que o confundiram com... um mendigo.

A bestialidade desses ataques gratuitos e aleatórios, que nem sequer são direcionadas contra alguém que tenha cometido algum crime contra o agressor, não permite compreender esse fenômeno decorrente de uma insatisfação com os níveis de insegurança pública. Esses assassinos podem até utilizar esse argumento para se autojustificar, mas um tal comportamento não passa de discriminação social, agressividade, crueldade e autocracia levadas a níveis patológicos, alguma saudade ensandecida dos tempos do esquadrão da morte, exigindo apuração e punição à altura.

Manuel Bandeira foi poeta e faleceu em 1968, mas mandou um WhatsApp autorizando o uso de seu poema ‘O bicho” nesta coluna.

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