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Ponto final

Lava Jato: É preciso “fechar” o trabalho para se obter resultados concretos

Um dos maiores desafios de se combater o crime organizado incrustado nas instituições públicas é a grande capacidade dos envolvidos não apenas de se proteger juridicamente, mas também de reagir politicamente

Publicado em 13 de Setembro de 2020 às 05:00

Públicado em 

13 set 2020 às 05:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff Henrique Herkenhoff
Corrupção
Crimes do colarinho branco também fazem parte do debate sobre segurança pública Crédito: Freepik
Na imprensa e nas redes sociais, um dos assuntos mais comentados são os destinos da Lava Jato. Podemos se contra, a favor ou muito pelo contrário, mas ninguém tem como negar a sua importância para a história brasileira recente e para os destinos próximos do país. Crimes do colarinho branco também fazem parte do debate sobre segurança pública, os valores envolvidos parecem maiores do que a soma de todos os furtos e roubos do mesmo período.
Um dos maiores desafios de se combater o crime organizado incrustado nas instituições públicas é a grande capacidade dos envolvidos não apenas de se proteger juridicamente, mas também de reagir politicamente. Muito mais do que ameaçar a integridade física dos investigadores, podem simplesmente colocar toda sorte de obstáculos ao seu trabalho.
Por outro lado, as delações premiadas são excelentes ferramentas, mas trazem um problema inerente: elas tendem a fazer crescer exponencialmente o âmbito das investigações. Em poucos dias, poucos réus se transformam em dezenas, centenas e depois milhares. São informações demais para serem transformadas em provas, muitas provas para converter em ações penais, ações em excesso para julgar.
Polícia, Ministério Público e Judiciário ficam assoberbados e, em algum momento, tendem ao colapso. Isso pode resultar em um ciclo de impunidade dos culpados, uns por haverem celebrado acordos, outros porque não houve condições materiais para apurar suas condutas e mais alguns por prescrição.
Como não bastasse, lembremos que a progressão geométrica do número de investigados impressiona a população e ganha o apoio da opinião pública, mas não é suficiente. Ao contrário, aqueles que se sentem ameaçados tendem a se unir e a se movimentar intensamente.
Quem está à frente das investigações sofre a tentação de continuar indefinidamente. Afinal, a cada fio que se puxa, aparece mais uma tramoia. De cada buraco que se enfia uma mão sai uma galinha, como disse um brincalhão. Parece que temos a chave para consertar todos os males do mundo ou, pelo menos, do Brasil.
O problema é que, se não houver um momento para “fechar” o trabalho (ainda que para iniciar outro logo em seguida), não se chega a muitos resultados concretos e as coisas se perdem nas brumas do tempo e nas pilhas de papel. Em algum momento, difícil de definir, é preciso não aceitar mais delações premiadas e não iniciar novas investigações, para concluir aquelas já instauradas ainda a tempo de ver os processos julgados antes da prescrição e sem que os criminosos acabem suas vidas em alguma ilha paradisíaca, aproveitando aquilo que conseguiram esconder das autoridades.
Que ninguém se preocupe, os corruptos que escaparem desta vez continuarão seus crimes e poderão ser punidos na próxima ocasião. Salvar a humanidade sozinho e na primeira tentativa só deu certo com Cristo.

Henrique Herkenhoff

Henrique Herkenhoff Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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