Volta e meia a imprensa ou os grupos nos aplicativos de conversa interrompem o debate sobre a epidemia da Covid para falar do recente surto de aquisições de armas de fogo. Aparentemente, apenas aqueles que defendem a liberação do seu porte para os cidadãos têm, realmente, algum interesse em participar. Por outro lado, tanto as autoridades de segurança pública como os estudiosos nas universidades são praticamente unânimes em condenar essa política.
De fato, embora as pessoas adquiram armas na esperança de se proteger da violência, todos os estudos científicos associam a maior acesso a elas ao aumento das estatísticas. Do outro lado, todo aquele que recebe a incumbência de controlar mais alguns milhões de revólveres e pistolas em mãos de particulares sabe que isso é absolutamente impossível: se essa fiscalização pífia que existe no Brasil já implica custos elevadíssimos e se mostra completamente ineficiente, uma inspeção rigorosa implicaria, na prática, inviabilizar economicamente a simples posse de armas até para a classe média alta.
Existem é claro, problemas adicionais criados por essa política. É inevitável que a maior disponibilidade de armas terá alguma influência sobre crimes passionais, suicídios e disparos acidentais. Contudo, no curto prazo, o que mais preocupa é o aumento (já verificado, aliás) no número de latrocínios, muito provavelmente reflexo de pessoas armadas tentando reagir a roubos e, claro, sendo suplantadas pela óbvia vantagem dos criminosos, que já estão com a arma em punho e alertas, surpreendendo as vítimas, que bem podiam sair do episódio sem o seu celular, porém vivas.
No longo prazo, também é inevitável que as armas legalmente adquiridas caiam aos poucos em mãos dos criminosos, aumentando o arsenal com que volta e meia alguém se depara em alguma esquina escura ou quando vai entrar em sua garagem.
Não há nada mais desesperador para os médicos que alguém não habilitado tentando prestar socorro a um acidentado, ou ingerindo medicamentos recomendados pelos vizinhos, para alguma doença sequer diagnosticada. Nada pior que a combinação entre o voluntarismo e a falta de confiança naqueles que estão profissionalmente preparados para lidar com alguma questão – não que sejam infalíveis.
Alguém acorda disposto a acabar com o crime, limpar a cidade; coloca uma máscara e a cueca por cima da calça e acha que é o Batman. Claro, nem todos os que adquirem uma arma pretendem patrulhar as ruas à noite, mas, se não é para bancar o herói, para quê comprar a fantasia? Tudo bem, é carnaval.
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