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É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

A nova quarentena e os impactos na segurança pública

É cientificamente incontroversa a relação estatística entre evasão escolar e envolvimento precoce com o tráfico e outros atos infracionais. Essa deve ser uma das maiores preocupações

Publicado em 21/03/2021 às 02h00
Quarentena
Comércio no Centro de Vitória no dia 18 de março de 2021, primeiro dia da nova quarentena no ES. Crédito: Carlos Alberto Silva

recrudescimento da pandemia de Covid a um nível que nos fez retroceder às medidas mais severas de controle sanitário é o assunto do momento, especialmente seus reflexos na qualidade de vida da população e na sua saúde mental, bem como na economia. E, claro, uma alteração dessa magnitude na ordem social não poderia deixar de ter impactos na segurança pública, mas vale a pena especular quais seriam, para adotarmos medidas preventivas.

A primeira onda do coronavírus decepcionou os que esperavam saques e desordem. Descontando os desvios de verbas da saúde, cometidos pelo andar de cima, vimos que os crimes patrimoniais até diminuíram, sendo menos evidentes as influências nos conflitos interpessoais, isto é, homicídios, violência doméstica, etc.

Nossos programas de assistência pública funcionaram razoavelmente, as redes de solidariedade contribuíram, mas, principalmente, vimos que poucos de fato optaram pelo crime como estratégia de sobrevivência, ainda que, visualmente, possa ter ocorrido um aumento da população de rua.

Quem perdeu o emprego simplesmente aceitou um de menor remuneração ou está fazendo bicos; na pior das hipóteses, está pedindo esmolas. A violência patrimonial está associada a um contexto de pobreza, sim, mas há evidências de sobra de que não existe uma relação direta entre crise econômica e criminalidade.

Muito mais preocupantes são os prováveis desdobramentos das limitações impostas ao ensino, especialmente nas escolas públicas. É cientificamente incontroversa a relação estatística entre evasão escolar e envolvimento precoce com o tráfico e outros atos infracionais. Ora, os mais afetados pela pandemia foram nossas crianças e adolescentes, principalmente os que já estão em maior vulnerabilidade social.

A suspensão das aulas presenciais, associada à precariedade do ensino remoto – que seria apenas um sofrível paliativo – traz enormes riscos de que o processo de abandono escolar seja antecipado, acelerado, aprofundado e tornado mais difícil de reverter. Em outras palavras, a desistência dos estudos não apenas provavelmente ocorrerá em maior quantidade, mas também afetará mais as séries iniciais, em que era rara; o período de transição, em que o estudante começa a faltar e cometer atos de indisciplina simplesmente deixará de existir; a hesitação vai desaparecer, até porque o retorno não é uma possibilidade concreta e, quanto mais longo o período sem atividades presenciais, mais difícil será reagrupar os alunos, acostumados todo esse tempo a ficar não em casa, como sonham os inocentes, mas na rua e sem supervisão adulta.

Se os impactos sobre o aprendizado serão dramáticos e apenas parcialmente recuperáveis, a Covid será catastrófica para a evasão escolar e, consequentemente, para a segurança pública, e muito mais difícil ainda de remediar. Não é pequeno o desafio que recai, especialmente, sobre os sistemas municipais de ensino. Professores analógicos precisarão se reinventar como digitais da noite para o dia, mas a maior dificuldade é assegurar acesso do aluno à banda larga e à orientação adulta.

E, claro, precisaremos voltar às aulas presenciais tão rápido quanto possível. Passado o vendaval, a economia provavelmente vai retomar seu ritmo de maneira relativamente rápida, mas os estragos diretos e indiretos nas crianças serão duramente sentidos por elas, mas também pelo resto da sociedade. Isso é um problema de todos, não apenas de quem tem filhos em idade escolar.

*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

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