Corria o ano de 2002. A máquina estadual estava sucateada, os funcionários passavam meses sem receber seus salários, empresas deixavam o Espírito Santo por estarem sendo extorquidas e as autoridades públicas corruptas pareciam fortes demais para serem sequer incomodadas.
Surgiu o movimento Reage Espírito Santo, formado pela OAB/ES, com Agesandro da Costa Pereira à frente, por lideranças religiosas, por empresários e políticos honestos, por entidades sociais e de defesa dos direitos humanos etc. Com muita luta, conseguiram do Ministro da Justiça a promessa de intervenção no governo estadual, mas o presidente recuou porque priorizava fazer emendas constitucionais que ficariam proibidas enquanto ela durasse. O ministro pediu demissão em protesto e o governo federal ficou na maior saia justa. O que fazer em vez da intervenção?
Missão espacial. Força-tarrafa. Fraca-tarefa. Não foram poucos os trocadilhos que ouvi quando fui designado para compor, como procurador da República, a Missão Especial para Combate ao Crime Organizado no Espírito Santo, naquele mesmo ano. Ninguém acreditava que obteríamos qualquer progresso em livrar o estado da organização criminosa que dominava os poderes públicos capixabas e parecia invencível.
Como no resto do país e do mundo, o crime organizado instalara-se na máquina pública, porém de uma maneira diferente da que as pessoas imaginam. Nada de hierarquia piramidal e mesmo as ligações entre seus integrantes não eram todas estáveis. Era algo bem parecido com a rede criminosa a que me referi em artigo anterior, porém mais sofisticado e complexo.
Se eu soubesse alguma coisa de física e química, me atreveria a comparar com a física quântica, ligação entre partículas subatômicas etc.: você não as vê, mas a realidade de sua existência é impossível de negar; apenas os seus mecanismos internos são complexos e difíceis de identificar e provar.
Havia um integrante que não apenas se encarregava da lavagem de dinheiro, mas também da movimentação de grandes quantias ilícitas, só que não era chefe nem subordinado a ninguém. Procuravam-no quando precisavam e a ligação que mantinham era de fornecedor-cliente eventual.
Também tinha o núcleo que se encarregava da violência física, mas sua atuação era igualmente episódica. E, claro, havia agentes privados corruptores ativos e autoridades públicas como corruptos passivos, que faziam a maior parte do trabalho.
Cargos públicos de alto escalão não ficam vagos; tem sempre um vice ou suplente. Quando você prende ou consegue o afastamento de um integrante, no lugar daquele pode vir outro pior ainda. De qualquer forma, esse tipo de organização se caracteriza por essas ligações fluidas, que se fazem, desfazem e tornam a fazer na velocidade da luz.
De dois em dois anos há uma dança das cadeiras, mas quem não foi reeleito pode conseguir um cargo de confiança, e se, no final das contas, ficar de fora do poder, sempre haverá alguém para desempenhar o seu papel. Em resumo, ações criminais ou de improbidade administrativa têm um papel instrumental, não finalístico, por si sós elas jamais resolveriam o problema.
As outras entidades que participariam da força-tarefa demoraram uns 15 dias para anunciar os seus representantes e, enquanto isso, fiquei sozinho atendendo à imprensa (embora não soubesse exatamente o que aconteceria) e sofrendo bullying dos amigos, já que todos me consideravam o louco que clamava no deserto.
Os desdobramentos vocês já sabem. Ou será que não? O espaço acabou e a coluna continua na semana que vem...