“Escolas não são prédios, são pessoas. Elas aprendem em qualquer lugar.” Esta frase é de José Pacheco, educador português e diretor por quase três décadas da Escola da Ponte, escola pública onde desenvolveu uma experiência que revolucionou a educação nas décadas de 1970 a 1990.
Muito oportuna essa reflexão neste momento, já quase pós-pandemia, e de implantação dos novos currículos construídos em todos os Estados e municípios brasileiros a partir da BNCC-Base Nacional Comum Curricular.
A pandemia nos legou alguns aprendizados. Os prédios escolares ficaram fechados e sem atividades presenciais, mas boa parte das escolas funcionaram de forma remota, ou seja, as conexões de professores e estudantes se mantiveram com a mediação da tecnologia.
Não podemos identificar as escolas com os seus prédios. Escolas são pessoas, professores e estudantes, que se encontram com o objetivo de ensino e aprendizagem, visando desenvolver competências. Isso pode ocorrer de forma presencial ou virtualmente. Pessoas aprendem em múltiplos lugares, o prédio da escola é apenas um dos lugares onde pode ocorrer a aprendizagem.
O segundo aprendizado deixado pela pandemia é que não basta ter dispositivos digitais (computadores, tablets e smartphones) e conexão com a internet apenas nas unidades escolares. Daqui para a frente, além de garantir boa conexão nos prédios escolares, será necessário também disponibilizar dispositivos digitais e conexão de qualidade a partir da residência de cada estudante e cada professor.
Pode-se identificar um outro sentido na frase de José Pacheco. As crianças, adolescentes e jovens não aprendem só na escola ou na relação com os educadores. Elas aprendem também nas relações com seus familiares, especialmente valores com seus pais, e com pessoas das suas comunidades. Aprendem ainda tendo acesso aos bens culturais da sua época, tais como livros, literatura, teatro, cinema, exposições artísticas etc.
A BNCC e os novos currículos trazem outras novidades. O esforço da escola não pode mais ter unicamente a intencionalidade de ensinar. A escola precisa evoluir para a condição de promotora do desenvolvimento de competências. É certo que há momentos de ensino e aprendizagem em que o educador e o educando se concentram na apropriação do conhecimento consolidado. Mas o momento mais rico da escola é quando o foco do trabalho pedagógico se volta para o desenvolvimento de competências.
Segundo a BNCC competências se desenvolvem a partir da mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho. Assim, a escola ganha um novo sentido para os estudantes, pois se conecta com a realidade e atribui aos estudantes protagonismo na construção dos seus próprios conhecimentos. Esta é a escola do século XXI.
Os prédios escolares continuam a importar, como símbolo ou espaço de desenvolvimento do conhecimento, mas suas estruturas, organização e as relações humanas internas são totalmente transformadas para atender os novos desafios da sociedade do conhecimento. A tradicional sala de aula cede lugar para espaços de convivência, troca de saberes e ações colaborativas entres os estudantes. Os professores perdem o pedestal de onde proferiam magníficas aulas de conteúdo geral para turmas supostamente homogêneas. Assumem a nova função de mentores de aprendizes protagonistas, aos quais orientam e guiam na busca e na construção do conhecimento que dialoga intensamente com os seus interesses e propósitos presentes e futuros.
Estamos num novo tempo, o século XXI. As pessoas e o conhecimento são o que mais importam. É possível aprender e se desenvolver em qualquer lugar. A escola precisa se ajustar aos novos desafios da sociedade contemporânea. O espaço não é mais um limitador dos processos de aprendizagem e da criatividade humana.