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É psicológa, pedagoga e teóloga com doutorado pela PUCSP. Se tornou uma cientista do comportamento para compreender o que move os relacionamentos humanos

Imunidade psicológica em tempos de coronavírus

"A cultura, a religião e as memórias familiares são, de certa maneira, reservatórios de significações às quais recorremos para encontrar sentido para as nossas experiências"

Publicado em 07/04/2020 às 19h04
A equipe também disponibiliza dicas para pais e educadores.
"Acessar os conjuntos de itens memoráveis nos protege do pavor". Crédito: Freepik

Em tempos de coronavírus há de se pensar sobre reforçar e cuidar da imunidade psicológica, além da física. Imunidade psicológica é criar resistência no mundo dos sentidos. Sabemos que há diversos fatores de proteção do ser, como um forte sentimento de pertencimento à família e diversas âncoras afetivas, como o amor que sinto por alguém ou uma forte e genuína amizade - afetos que podem contribuir para garantir a proteção psicológica do indivíduo e a manutenção de sua segurança interna. A riqueza afetiva inscreve ancoragem no nosso universo de significações do sujeito-ativo e não de um sujeito-vítima.

Utilizo aqui o conceito que dá significado à imunidade psicológica, no sentido de que o sujeito pode manter a capacidade de continuar a existir, depois e apesar de trauma/ medo/ terror ao qual possa ser submetido. Ele consegue continuar sua existência como ser humano, totalmente humano, portador de um sentido, de um projeto, em contato com a realidade e vinculado aos outros e ao grupo social. Ter robusta imunidade psicológica em tempos de guerra, de desolação e de tormentas é essencial para a sobrevivência do ser.

Para tanto, a cultura, a religião e as memórias familiares são, de certa maneira, reservatórios de significações às quais recorremos para encontrar sentido para as nossas experiências. Assim, acessar os conjuntos de itens memoráveis nos protege do pavor, da perplexidade, da confusão, tornando o real significante e previsível. Essa função de proteção é fundamental quando se trata de estarmos diante de fenômenos de perigos, riscos e eminências de morte, pois busca irromper na ordem do cotidiano as nossas mais inomináveis agonias.

A imunidade emocional tem como função:

1. reduzir os sintomas clássicos do sofrimento psicológico (ansiedade, afetos depressivos, sentimentos de perda e luto, transtornos somáticos diversos...);

2. reduzir as manifestações sintomáticas do transtorno de estresse pós-traumático (pesadelos, sobressaltos, angústia, pavor, imagens do evento traumatizante...);

3. estimular os vínculos da pessoa com seu meio psicossocial e apoiá-la em suas dificuldades de adaptação, quando do retorno à condição normal de vida na rotina original.

Imunidade psicológica está ligada ao mundo invisível, mas poderoso, capaz de nos envolver em escudos que reforçam nossa sensação e vivência de confiança na vida.

Pensemos no terrorismo. Sim, o terror é o processo pelo qual passamos hoje. O luta pela sobrevivência de um inimigo invisível. Inseguranças, suspeitas, ... Vivemos sobre os mesmos princípios: utilização da imprevisibilidade, da dor física e psíquica, da mobilidade como risco de morte, do pavor, da absurdidade lógica.

O medo se assenta sobre a certeza da desproteção!

O medo produz suplícios e vulnerabilidades postas, imunidades abaladas.

O medo deixará suas marcas no ser - e o corpo não está divorciado do todo do ser. Assim, o corpo contará a “história”. Mesmo que não seja mediante uma manifestação física imediata; será, todavia, através de manifestações de natureza afetiva.

Os “efeitos” do medo podem ir de manifestações físicas até grandes descontroles de natureza emocional, podendo chegar a graves casos de paranóia e doenças psicossomáticas.

A nossa manifestação psicofísica é nada além de reação diante da visão de um mundo e sua ordem, sua desordem, suas leis, seus deveres, suas opressões, suas tiranias, suas guerras, suas disputas, suas concorrências, seus valores antagônicos, suas imagens de esculturas psicológicas, econômicas, sociais, morais, religiosas, e éticas deformadas e corruptíveis, adoecidas e sintomáticas.

É uma benção quando a disciplina do ser nos lembra da nossa responsabilidade quanto a cuidarmos de nossas próprias consciências, antes dos corpos, mas hoje, concomitantemente ao corpo como prova de que a coisa mais simples da vida é também a mais difícil: usar todo o nosso potencial de saberes a nosso favor!

O medo drena mais energia emocional de você do que você pode imaginar.

Portanto, reforcemos nosso baluarte interno como fonte de energia e saúde para com a existência.

Uma obrigação nos foi dada, que possamos usá-la para o nosso bem!

Invista tempo de qualidade na família e no lar, pois neles se vive o mundo das afetividades e dos sentimentos. Não os despreze nem os ignore. Viva o tempo de isolamento neste ambiente que favorece e aponta para a sua continuidade - de dentro e de fora.

Saiba, a semente do ser é mais profunda em suas raízes!

Ora, é na dimensão do eu-profundo que a proteção genuína acontece, visto que nada acontecerá no ser humano se não for alterado desde os porões do seu ser, no ambiente do mistério absoluto da natureza humana de cada indivíduo: seu berço! Retornemos a ele e nos protejamos.

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