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Brasil

Usos e abusos da bandeira nacional

Nas motociatas e carreatas, com as cores nacionais, carregando como ‘bezerro de ouro’ uma réplica gigante de uma arma, a bandeira nacional está longe de ser um símbolo da paz e da esperança

Publicado em 01 de Agosto de 2022 às 02:00

Públicado em 

01 ago 2022 às 02:00
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro Francisco Aurelio Ribeiro
A Bandeira do Brasil é um dos símbolos nacionais, ao lado do laço, do selo, do brasão de armas e do hino, como todos sabem. Existem normas específicas para o seu uso, leis, decretos e portarias que disciplinam a sua confecção, formas de hasteamento e de recolhimento e uma série de outros detalhes sobre o seu manuseio.
Durante a ditadura militar (1964-1985), isso era tão sério, que só os militares se consideravam aptos a tocar a bandeira e dela fazer uso. Uma exceção foi a vitória da Seleção Brasileira de futebol, na Copa de 1970, quando o país vivia uma época de perseguição e repressão tamanhas, que o povo extravasou sua alegria contida e sufocada na garganta, saindo às ruas, enrolado em bandeiras, pulando carnaval, sacudindo-a numa alegria frenética com a complacência dos militares.
Depois, acabada a festa, tudo voltou à ‘anormalidade’ e a bandeira voltou a ser aprisionada aos quartéis. Somente em 1984, na campanha ‘Diretas Já’, liderada por Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Teotônio Vilela e outros próceres da Democracia, a bandeira nacional retornou à rua, de vez, para ficar, sendo desmitificado o seu uso em roupas, cangas de praia, bonés, toalhas de mesa, cortinas, ou seja, acabou o tabu de ser a bandeira nacional de uso restrito às solenidades oficiais e nos quartéis e repartições públicas. Fafá de Belém ousou cantar o Hino Nacional num outro compasso, desmilitarizando o ritmo marcial em que era tocado, colocando o sentimento acima de tudo e Deus no meio de nós.
Hoje, quando vejo os adeptos de Bolsonaro fazerem uso da bandeira nacional, como se ela só a eles pertencesse, me vêm à memória os tristes anos da ditadura. E lembro, sobretudo, a letra do Hino à Bandeira, composta por Olavo Bilac, que, talvez, eles nem saibam cantar: “Salve, ó lindo pendão da esperança, salve, ó símbolo augusto da paz!” .
Nas motociatas e carreatas que fazem, vestindo as cores nacionais, carregando como ‘bezerro de ouro’ uma réplica gigante de uma arma, a bandeira nacional está longe de ser um símbolo da paz e da esperança. Os verde-amarelistas de hoje fazem uma Marcha para Jesus, da qual Jesus não participa. Jesus veio ao mundo para pregar "amar o próximo como a ti mesmo" e não "armar o próximo como a ti mesmo".
O Brasil é um país de todas as cores. Na época da criação da bandeira nacional, logo após a República, houve várias propostas. Uma delas, a de Lopes Trovão, criava um quadrilátero negro, onde ficavam as estrelas representando os Estados, para simbolizar os africanos que formaram a nossa nacionalidade; a de Silva Jardim radicalizava, pois eliminava as cores verde e amarela, heranças imperiais, e as substituía por vermelho, representando os povos indígenas; o preto, os africanos, e o branco, os imigrantes europeus, e a de José Maria da Silva Paranhos, que também propunha essas três cores, mas com outros detalhes figurativos.
A escolha caiu sobre a que mantinha as cores verde e amarela, que já vinham desde a Independência e simbolizavam as duas casas reinantes, Bragança e Habsburgo, trocando-se a coroa imperial pelo círculo com estrelas e os dizeres “Ordem e Progresso” do positivismo predominante à época.
Marechal Deodoro, que sempre foi monarquista e só aceitou ser o primeiro presidente republicano pela instabilidade política, decidiu pela bandeira verde-amarela, por considerar que “as cores da nossa antiga bandeira recordam as lutas e as vitórias gloriosas do exército e da armada na defesa da pátria”, ou seja, foi uma decisão militar e não civil-republicana. (Dec. 4. 19/11/1889).
Para botar lenha na fogueira, talvez seja necessário, em algum momento, mudar a nossa bandeira. Ela é muito difícil de ser reproduzida, devido à posição das estrelas e ao lema pela metade. O slogan inicial de Auguste Comte era: “O amor como princípio e a ordem como base; o progresso como meta”. O correto seria: Amor, Ordem, Progresso ou Amor e Ordem: Progresso. Também o Hino Nacional, todos sabem, é muito longo, e deveria parar no meio, como já se faz nos estádios, mas isso é discussão futura. Fiquemos, por ora, com a bandeira, símbolo nacional e não de um grupo.

Francisco Aurelio Ribeiro

Francisco Aurelio Ribeiro Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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