Um ano novo se inicia e a palavra que está no coração de todos é esperança. Estamos todos aprendendo a conjugar um verbo ensinado por Paulo Freire, o verbo “esperançar”. Conforme disse: “É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…”.
O país está partido, famílias, igrejas, grupos de redes sociais, estamos todos fraturados, desunidos, desacreditados em nossa fé e na crença no reerguimento de nossas estruturas sociais e econômicas. Após um governo desastroso, agravado por dois anos de pandemia, tivemos uma campanha política das mais acirradas já vistas em nossa frágil democracia.
Creio que o que vimos e vivemos nos leva a reivindicar, seriamente, mudanças nas práticas eleitorais: 1) O voto deve ser obrigatório? Penso que não. Uma democracia supõe o direito de o cidadão decidir se quer ou não votar; 2) É justo manter-se o estatuto da reeleição, principalmente em cargos executivos? Sou favorável ao revezamento de representantes em cargos executivos e legislativos. Não é justo usar-se a máquina pública para se reeleger e foi o que mais vimos, tanto no executivo quanto no legislativo.
3) Deve-se manter o fundo eleitoral como está, sem maiores critérios de como essa verba é distribuída? Partidos priorizam os que já têm mandatos ou os que têm mais chances de se eleger em detrimento de novas lideranças que surgem. A renovação é mínima. Vota-se sempre nos mesmos. 4) Sistema de cotas raciais ou de gênero não deve ser uma farsa. Muito(a)s candidato(a)s entram, não fazem campanha, recebem verba do fundo eleitoral, muitas vezes dividida com o presidente do partido. Triste isso!
Deixemos essas discussões futuras para o novo Congresso que se inicia, embora precisemos de muita esperança para acreditar que com um perfil tão direitista e reacionário, como é o da maioria do nosso parlamento recém-escolhido, saia alguma mudança social. Não será fácil para o novo presidente governar com os que foram eleitos pela quase metade do eleitorado que não o apoia, talvez isso explique um ministério tão amplo como o criado por ele. Dizem que política é a arte de negociar e de fazer acordos para poder governar. O problema é quando esses acordos redundam em mensalões, orçamentos secretos e outras práticas nefastas presenciadas no passado.
Precisamos ter esperança em dias melhores. Queremos acreditar que o amor vencerá o ódio. Desejamos, com toda força, que o atual governo, eleito por pequena maioria da população, consiga reduzir as profundas diferenças sociais do nosso país, que os mais pobres voltem a ter comida no prato e os mais ricos sejam alcançados pelo Imposto de Renda.
Precisamos acreditar que não apenas os deputados, juízes e funcionários do alto escalação tenham seus já altos salários reajustados, como já o foram, mas também todos nós, barnabés da base da pirâmide social do funcionalismo público, escolhidos pra Cristo pelo governo que passou, sejamos lembrados e tenhamos nossos parcos rendimentos reajustados.
Estamos com os salários congelados há vários anos, enquanto os do topo se banqueteiam com o erário público. Enfim, vivemos num país rico, um dos maiores produtores de alimento do mundo, e convivemos com pobres e miseráveis nas ruas, pedindo, pelo amor de Deus, o pão de cada dia, dormindo nas calçadas, catando objetos recicláveis no lixo, arrastando carros pesados de sucatas, os verdadeiros “burros sem rabo” como são chamados.
Queremos acreditar que essa situação vai melhorar, mas isso só ocorrerá se os corações empedernidos dos que não se comovem com essa situação deixarem de comer filé com ouro para que muitos tenham apenas o feijão com arroz que lhes falta no dia a dia.