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Governo federal

Governo Lula: esperança venceu o medo, mas não será como sonhamos

As disputas entre campos com projetos tão diferentes, ainda que temporariamente unidos em torno da luta democrática, em breve começarão a apresentar uma conta difícil de ser paga

Publicado em 27 de Dezembro de 2022 às 00:15

Públicado em 

27 dez 2022 às 00:15
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Faltam apenas cinco dias para o início de um novo ciclo na história política brasileira. A esperança está no ar e tudo gravita em torno da escolha dos ministros que irão participar da construção dessa nova modelagem do Estado brasileiro.
Mesmo os mais céticos parecem alimentar esperanças de que mudanças radicais acontecerão logo nas primeiras semanas do governo Lula. Progressistas e conservadores racionais, não capturados ou contaminados pelos desvarios bolsonaristas, se unem, de alguma forma, ou em alguma medida, na expectativa de que o circo de horrores vá passar em breve.
É certo que as mudanças serão muitas e profundas, mas não atingirão nem de perto os sonhos que habitam em nossos corações e mentes. Há limites que se estabeleceram a partir da configuração da frente ampla que se formou para o alcance da vitória de Lula no segundo turno das eleições.
Qualquer pequena mudança será considerada uma grande mudança, depois de vivenciarmos o caos, a desordem, a perversidade explicita e institucionalizada, o genocídio promovido pelo Estado, seja na condução da pandemia, seja na produção da fome e da miséria, o ridículo público internacional, o escárnio como tipificação governamental no trato com os miseráveis, vulneráveis, pretos, pobres, mulheres e tantas outras categorias construídas para alijar os que não aceitaram participar do delírio coletivo que se espalhou pelo país.
Lula já anunciou 21 ministros de seu governo, mas ainda faltam 16
Lula e alguns dos ministros e ministras anunciados Crédito: Ricardo Stuckert
Entraremos, sem qualquer sombra de dúvidas, em um ciclo de relativa normalidade nas palavras e ações que vão emanar da presidência da República e de todo o entorno presidencial.
É certo que não serão tolerados atos explícitos de desrespeito e violações aos Direitos e Garantias Fundamentais. O ciclo político de valorização da mentira, do armamento da sociedade e da violência serão imediatamente interrompidos. Decretos de natureza antidemocrática serão revogados e a normalidade vai ser restaurada de alguma maneira.
Estamos, muitos de nós, envolvidos em um clima de regozijo e expectativas positivas com relação ao ano que se aproxima. As manifestação antidemocráticas, ainda que permaneçam na conduta de alguns desvairados, ingênuos, manipulados, marionetes dos que de fato têm interesses escusos, começam a arrefecer e se tornarão cada vez mais objeto de ridicularização e desmoralização pública.
Muito em breve assistiremos a cenas bizarras de líderes religiosos que vociferaram impropérios acusatórios a Lula, gravitando em torno do presidente eleito como se sempre tivessem estado ao seu lado e em sua defesa.
Há esperança de que dias melhores virão, nos quais a fome será arrefecida, a credibilidade da ciência recomposta, o respeito internacional restaurado, os relacionamentos recompostos e a democracia reavivada,
O problema é que quanto mais altas as expectativas maior a frustração pela não realização daquilo que foi idealizado e prometido no calor da campanha. Muito cedo começaremos a sofrer as dores, os dissabores e os embates entre as forças que se uniram em torno de Lula no segundo turno.
Por mais habilidoso que seja o presidente eleito, as disputas entre campos tão diferentes, que se uniram em torno da defesa da democracia, considerando os riscos de ruptura democrática à qual estávamos submetidos, começarão, em breve, a mostrar suas afiadas pontas, iniciando-se uma difícil luta pela governabilidade.
Os partidos que participaram da frente ampla denominada “Juntos pelo Brasil” agora querem, claro, sua fatia do bolo. Querem governar o país junto com Lula e não aceitarão que se mexa naquilo que lhes é mais caro, qual seja, os princípios neoliberais que lhes garante a acumulação de riquezas e manutenção do status quo.
E o Centrão, claro, sempre unido e coeso em torno da mesma pauta, continuará dando cartas em um jogo de pôquer sempre traiçoeiro.
Os sonhos de uma social-democracia, com um SUS 100% público, entre outros, não estão garantidos com a eleição de Lula e, por exemplo, com a nomeação de Nísia Trindade para o Ministério da Saúde.
As disputas entre campos com projetos tão diferentes, ainda que temporariamente unidos em torno da luta democrática, em breve começarão a apresentar uma conta difícil de ser paga.
Uma das decisões mais difíceis a comprometer as expectativas do campo democrático será, certamente, a responsabilização de todos que contribuíram para a tragédia que foi a condução da pandemia e de sustentação, ainda que indireta, do governo Bolsonaro. Há um preço a ser pago, pelas violações de Direitos e pela apropriação do Estado que não pode ser objeto de anistia.
O problema não é criminalizar e responsabilizar Bolsonaro, seus filhos e seus ministros. O problema é fazer o mesmo com todos que gravitaram em torno da expropriação da coisa pública, muitos deles lideranças representativas de campos políticos fortes, capilarizados em instituições essenciais à manutenção do equilíbrio político e social.
Governar sem anistiar. Governar sem negociar o inegociável. Governar sem entregar os sonhos de uma democracia comprometida com a redução de privilégios, com a igualdade, com a transparência, e com a busca por justiça e paz.
Não é apenas romper com os desvarios delirantes e perversos de Bolsonaro. Isso é fácil para um humanista, racional, equilibrado, sensível e que veio do chão da fábrica, nascido no nordeste, como Lula.
Difícil é governar tendo que fazer concessões, em nome da governabilidade, com grupos sempre tão ávidos e inescrupulosos como os que temos visto proliferar no país.
Bolsonaro foi derrotado nas urnas, mas sua visão de mundo continua firme, latente, apenas esperando uma nova brecha para reviver.
O futuro pode não ser aquele que sonhamos, mas será, certamente, muito melhor do que aquele que teríamos se a esperança não tivesse vencido o medo.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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