Ano novo, vida velha. O ritual de passagem de ano é apenas simbólico, pois, na verdade, a vida continua a mesma, com seus acertos e erros, desafios e conquistas, frustrações e muitas promessas que não serão cumpridas.
Algumas coisas, no entanto, poderiam ser diferentes, se nos propuséssemos a ser mais tolerantes e, sobretudo, compreensivos com as diferenças culturais. De que adianta estarmos entre as nações econômicas mais prósperas do mundo, se estamos na rabada em todos os quesitos de desenvolvimento humano, sobretudo na falta de educação? E não é só escolarização, não. A palavra educação quer dizer “conduzir-se para fora”, o que implica saber enxergar o outro para bem conviver. E, nesse aspecto, brasileiro é muito mal-educado.
Noite de réveillon. Milhares de pessoas vãos às praias celebrar a passagem de ano, ver os fogos, brindar com amigos e familiares e, ao saírem, deixam toneladas de lixo. Ninguém tem a educação de levar o seu lixinho e colocar no lugar certo, na lixeira. No outro dia, de madrugada ainda, milhares de garis recolhem toneladas de lixo, para deixar a praia limpinha para os usuários que a emporcalharão, rapidinho.
E assim é, todo dia. Ao final do dia, praias e cachoeiras, rios e lagoas, tudo fica repleto de lixo humano de gente sem a menor consciência ambiental ou de respeito à natureza. Poderíamos aprender só um pouquinho com os japoneses, o povo mais ordeiro e respeitador de todos que conhecemos.
Outro problema é a venda de ambulantes na praia, um hábito comum por aqui e proibido em outros países. Brasileiro adora comprar e comer tudo o que vendem na praia, mas não sabe o que fazer com os detritos da comilança.
Antigamente, comia-se milho verde, naturalmente, enrolado na folha da espiga. Sobrava o sabugo, fácil de catar e de jogar no lixo. Agora, o milho é cortado e posto em pratinhos descartáveis, para ser comido com colherinhas. Puro lixo! Dia desses, contei dezenas deles espalhados pela areia. Um horror!
Mais difícil ainda é educar o povo a não jogar a sacola e o palito de picolé na areia, mesmo que o carrinho do vendedor tenha uma lixeira. As crianças saboreiam o picolé e, depois, enterram o palito e a sacola de plástico na areia, com a conivência ou ‘tô nem aí” dos pais, quase sempre grudados às telas dos celulares, sem tempo ou disposição para ensinar às crianças. Final de tarde, no verão, as praias brasileiras parecem ter sido atacadas por soldados em guerra.
Somos um povo barulhento, por natureza, dizem que um dos mais alegres do mundo. Será que o índice de felicidade é medido por decibéis ou mililitros de álcool ingeridos? Não adianta proibir som alto na praia, porque cada carro ou barraca liga o seu, no mais alto volume, e daí para o inferno é um passo.
Como disse o turista mineiro, em Guarapari, ao repórter da TV: “Se mandar desligar, nóis liga de novo”. Ninguém mais vai à praia para ouvir o barulho do mar, sentir o vento, o sal, curtir a natureza. Hoje, o que importa é fotografar e filmar tudo, para postar, nas redes sociais. “Oia eu aqui, miga, curtindo uma praia!”. Só não olha a onda, que a arrasta com celular e tudo.
Neste início de verão, quente e chuvoso, como é contumaz, todo cuidado é pouco. Tento caminhar pela beira-mar, como faço há meio século, pois gosto de sentir a água gelada nos pés, sem levar uma raquetada de frescobol, uma mãozada de areia ou uma bolada nas costas.
Agora, também tem o problema dos “banana-boats”; antigamente era um só, o do Fred (Mercury?), agora tem Shakira, Madonna, Lady Gaga e não sei quantos mais, com cordas para nos impedir o caminhar e um perigo para nadar, por causa das lanchas, que podem passar por cima da gente, num piscar de olhos. No mais, estar atento, pois, depois da tempestade, vem o mosquito da dengue. Ainda bem que inventaram a vacina, mais uma, e assim vamos vivendo, graças à ciência.