Não sei o que será da memória literária quando, daqui a 100 anos, se procurarem os livros digitais ou eletrônicos ora produzidos. Se não existirem mais bibliotecas físicas, a memória da humanidade estará na nuvem? E essa nuvem comportará tudo o que está sendo e será produzido? Onde irão parar as lives que inundam os nossos dias pandêmicos? E os vídeos nossos de cada dia, onde estarão?
Não sei e nunca saberei, pois não estarei vivo para contar. O que sei e disso posso falar é do mundo físico e tangível que ainda temos, das bibliotecas e dos arquivos como memória coletiva da humanidade e que ainda posso ver, visitar, tocar e pesquisar, como a Biblioteca Saul de Navarro da nossa Academia Espírito-santense de Letras.
A biblioteca da Academia Espírito-santense de Letras foi constituída na década de 1940, quando sua sede era no antigo prédio do Banco de Crédito Agrícola do Espírito Santo, na Praça Oito de Setembro, no lugar onde hoje está a agência central do Banestes. A maior parte dos livros foi doada pelo acadêmico Saul de Navarro, pseudônimo de Álvaro Henrique Moreira de Souza (1890-1947), natural de Santa Leopoldina e grande divulgador da cultura ibero-americana.
Infelizmente, com a demolição do Banco de Crédito Agrícola, na década de 1960, a AEL ficou sem sede e perdeu-se grande parte de seu mobiliário e dos livros de sua biblioteca. Somente a partir de 1979, com a morte do professor Kozciusko Barbosa Leão e de sua esposa, Dona Laura Madeira de Freitas, que, sem herdeiros, doaram sua casa para sede da AEL, o acervo restante da biblioteca Saul de Navarro pôde se incorporar ao da biblioteca do professor Kozciusko e se tornar, hoje, um dos mais importantes da memória literária capixaba.
Atualmente, a biblioteca Saul de Navarro possui mais de dez mil títulos somente de obras produzidas no Espírito Santo ou por capixabas, infelizmente, em mau estado de conservação. A última higienização e catalogação do acervo foi feita há mais de dez anos, com patrocínio da Prefeitura Municipal de Vitória, via Lei Rubem Braga.
Por algumas vezes, tentamos recursos dos editais da Secult, mas nunca conseguimos. Parece que somos vistos como organização cultural com recurso próprios, o que não é verdade, e não foi considerada prioritária a manutenção de nosso acervo literário. Com isso, nossa memória cultural vai-se perdendo. Temos buscado reeditar livros do passado e, desde 2007, fazemos convênio com a PMV com esse fim. Nem sempre conseguimos.
Há sempre uma burocracia necessária a ser seguida e a traça não espera, vai comendo o que restou. Isso aconteceu, por exemplo, com os livros do professor Amâncio Pereira (1862- 1918), o mais importante escritor de sua época e cujos livros não existem mais em nossas bibliotecas. O pouco que ainda resta está com a família, nem sempre a melhor guardiã desse acervo.
A biblioteca pública estadual, depositária dos livros produzidos no ES, passa pela mesma dificuldade, sem recursos financeiros, físicos e humanos suficientes para a preservação de nossa memória literária. O cargo de bibliotecário praticamente se extinguiu na administração pública estadual. Um povo que não conhece seu passado está condenado a repetir seus erros no futuro, pois, sem livros, não conhecemos a nossa história.