Todo mundo sabe que a memória capixaba de seu passado, de sua história e de seus personagens históricos é uma vaga lembrança. Entre essas figuras pouco lembradas, hoje, está a do professor Amâncio Pinto Pereira, nascido em Vitória, em 1862, e aqui falecido, em 1918.
Diferentemente de seu filho, o também professor e advogado Heráclito Amâncio Pereira (1894-1957), um dos fundadores da Faculdade de Direito, núcleo formador da futura Universidade do Espírito Santo (1954), federalizada em 1961, que teve o centenário de seu nascimento lembrado e comemorado, passou batido entre nós o centenário de morte de Amâncio Pereira, ocorrido em 2018. Felizmente, o Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo (NEPLES), do qual fui um dos fundadores junto ao PPGL da Ufes, aceitou a indicação do nome do professor para ser o homenageado no VIII Seminário sobre o autor capixaba, o Bravos Companheiros e Fantasmas, a ocorrer em agosto deste ano.
Tomara isso incentive a nova geração de estudiosos da literatura produzida no Espírito Santo a conhecer um pouco da obra desse que foi o principal escritor de sua época, um polígrafo, que escreveu contos, romances, poemas, crônicas, artigos e, sobretudo, peças teatrais de diferentes espécies e modalidades, hoje quase inexistente nas bibliotecas e arquivos públicos de nosso Estado.
De origem humilde, o professor Amâncio era filho natural de Maria Teresa dos Remédios, foi criado por uma tia, Francisca Pinto Pereira, a Dona Chiquinha de Caçaroca, de quem herdou o sobrenome e de quem cuidou até a morte, em 1907, tendo recebido uma educação reservada à elite da época. Fez o Primário com o conceituado Professor Aristides Freire (1860- 1922), e chegou a cursar o Ateneu Provincial, colégio secundário criado em 1873 para preparar a elite masculina para os cursos superiores.
Em 1879, ainda estudante no Ateneu Provincial, foi um dos criadores do Grêmio Saldanha Marinha, de feição republicana, manifestando-se, desde moço, em favor da abolição da escravatura. O professor Amâncio Pereira era descendente de negros, mas ainda não se sabe se pela ascendência materna ou paterna. Por sinal, a maioria dos habitantes do Espírito Santo, em meado do século XIX, era mestiça e era quase igual o número de pessoas pardas e o de brancas, cerca de 14 mil, declaradas no levantamento estatístico de 1856.
No entanto, por falta de recursos financeiros, Amâncio Pereira não pôde fazer o curso de Ciências Jurídicas, reservado aos ricos, passando a atuar na imprensa e no magistério primário. De 1883 a 1888, foi professor em Anchieta, sem deixar o jornalismo, as letras, o teatro e a música. Dessa época, são suas primeiras obras, "Miscelâneas", poemas, 1884, e "Deomar", drama em três atos, escrito e encenado em 1888. Seu best-seller foi "Noções Abreviadas de Geografia e História do Espírito Santo", 1ª ed. em 1894 e 5ª em 1914. Afonso Cláudio, em 1912, o considera fundador da prosa de ficção no Espírito Santo e Oscar Gama, em 1987, diz que ele foi o criador do teatro infantil no Brasil, em 1915. Penso que ele foi o maior escritor capixaba de sua época e sua memória não pode ser esquecida.