Estivemos na semana passada, no Palácio Anchieta, em cerimônia de lançamento de 22 livros do edital 2023 e de 10 pontos de cultura distribuídos em oito municípios capixabas à beira-mar. Excelente! O Salão São Tiago estava lotado com pessoas de todas as tribos. Diversidade é a palavra-chave, disse Ana Laura Nahas, uma das coordenadoras do evento.
O maior atrativo para todos os presentes não eram somente os livros, seus autores ou os pontos de leitura. Todos, sem exceção, fomos ver o Aylton Krenak, uma das principais lideranças brasileiras de nossos tempos. Aylton é de uma doçura sem par e nos fala sobre tudo o que precisamos ouvir: se não escutarmos a voz da natureza, o planeta deixará de existir. Se não repensarmos nossa maneira de ser e de viver, o mundo se tornará cada vez mais violento, desumano e impossível de viver.
Passada a festa, tudo volta como dantes no Quartel de Abrantes. Os poucos livros distribuídos não chegaram à maioria dos presentes. Eram apenas sessenta de cada autor, e os presentes, centenas de ávidos leitores. Quem conseguiu um ou outro se deu por satisfeito e, a essa altura, deve estar saboreando os prazeres da leitura e a descoberta de um novo autor. Ou não.
Afinal, pouco sabemos sobre os hábitos de leitura dos capixabas, nenhuma pesquisa está sendo feita, nas bibliotecas escolares ou municipais, e não sabemos se o livro apanhado no lançamento é lido ou servirá, apenas, de adorno nas estantes, cada vez mais reduzidas em tempos de livros e de informações digitais.
Sempre procurei ler o que escrevem os capixabas, mas, nos últimos tempos, isso se tornou uma atividade quase impossível, pois os livros de escritores capixabas não são encontrados nas livrarias físicas de shopping, as poucas que ainda existem. Passado o lançamento, onde encontrar os livros de escritores capixabas? Não existe um espaço físico ou virtual onde eles estejam à venda ou disponíveis para leitura. Não seria o caso de a Secult planejar isso? Afinal, o escritor não quer, apenas, publicar o seu livro, o que é importante, mas torná-lo visível ao provável leitor. Como fazer esse livro circular e chegar a diferentes pontos de leitura, se alguém não fizer isso pelo escritor?
Talvez, uma saída seja criar uma aba no site da Secult, onde os livros premiados em edital fiquem on-line para serem lidos. Afinal, foram pagos por dinheiro público e é necessário que esse mesmo público que pagou o produto tenha acesso a ele. E os direitos autorais? O autor teria direito a 70% da tiragem física de cada livro para fazer o lançamento e venda para os seus amigos, os únicos que compram um livro de autor capixaba.
E, tenham certeza, amigos verdadeiros são poucos; os milhares de amigos virtuais não contam. Esses só servem para dar joinha e olhe lá rs. O restante seria distribuído nas bibliotecas públicas dos 78 municípios capixabas ou nesse lançamento festivo anual. Em compensação, cederia a primeira edição para uma publicação digital de seus livros. Assim, ele teria mais visibilidade e seus livros não ficariam restritos a uns poucos privilegiados que a ele tiveram acesso.