Adelpho Poli Monjardim (1903-2003) foi atleta na juventude, político na maturidade e escritor na velhice, tendo publicado vinte e dois livros de diferentes gêneros e modalidades. Como atleta, foi campeão estadual de handebol, pugilista, fisiculturista, remador e lutador, esportes que abandonou, em 1937, ao entrar como funcionário na Prefeitura de Vitória. A partir daí, começa, também, a escrever, e seu primeiro livro, publicado no Rio de Janeiro, em 1942, “O Mistério da Ilha de Trindade”, foi um sucesso, talvez o livro mais lido dentre os capixabas de sua época. A ele se seguiram “A Torre do Silêncio” e “Novelas Sombrias”, em 1944, também publicados no Rio e introduzem o realismo fantástico nas letras capixabas.
Embora tenha vivido todo o século XX, Adelpho Monjardim não sorveu as modernidades de seu tempo. Filho do Barão de Monjardim, a figura política conservadora mais proeminente de sua época, Adelpho Monjardim não pôde ser militar, como desejava, mas o culto às armas, ao militarismo e ao patriotismo reverberam em toda a sua obra, sobretudo a não-literária. Seus ídolos eram Bolívar, Caxias, Tamandaré, Mussolini, sobre os quais escreveu apaixonadamente.
Também literariamente se identifica com os autores do século XIX, que muito o influenciaram, como Hoffman, Poe, Hawthorne, cultivadores do fantástico fantasmagórico e, dentre nós, provavelmente, o Álvares de Azevedo de “Noites na Taverna” e “Macário”. Seu futuro foi-lhe vaticinado pelo pai barão: “escritor” ou “um grande mentiroso”, por sua imaginação criativa.
Adelpho Monjardim é um caso sui generis na literatura brasileira produzida no Espírito Santo, pois transitava entre a literatura tout court e a documental, de uma maneira pacífica, sendo reconhecido por seus pares tanto pela qualidade de suas obras produzidas pela imaginação quanto por aquelas geradas por pesquisas históricas, como as biografias de figuras ilustres como Caxias, Tamandaré, Santos Dumont, Bolívar e San Martin, ou sobre os conhecimentos acumulados e transmitidos sobre o Espírito Santo e Vitória, seu berço natal. Romancista, jornalista, político, servidor público, político, historiador, geógrafo e esportista, na juventude, era figura conceituada na sociedade vitoriense, membro atuante do IHGES e da AEL, em que ingressou em 1973, aos setenta anos.
Adelpho Monjardim deixou como principal legado para a literatura do Espírito Santo preciosa incursão ao gênero literatura fantástica, em sua obra ficcional de contos, novelas e romances; em sua contribuição à História e à Geografia, publicou obras que nos fazem recorrer à história da humanidade e, sobretudo, à da América Latina, veiculada em sua visão bastante pessoal dos fatos históricos; mas, sobretudo, o seu veio mais forte é o profundo conhecimento e amor que devotou a sua cidade natal, Vitória, e ao nosso Estado, o Espírito Santo, como se pode comprovar em “Vitória Física”, “O Saldanha do meu tempo” e “O Espírito Santo na História, na Lenda e no Folclore”.
Em seus vinte e dois livros publicados, nove são literários, sendo três de romances/novelas, quatro de contos fantásticos, um de crônicas memorialísticas e um de lendas capixabas. É a sua melhor obra e merece ser reeditada e estudada para conhecimento das novas gerações. Sua obra não-literária totaliza dez livros de ensaios históricos, geográficos e biografias; dois de diálogos ideológicos, defensor apaixonado do militarismo, do patriotismo e da ditadura militar e o seu discurso de posse na AEL, em 1973.
Sem nenhuma dúvida, sua maior herança para o Espírito Santo e para as letras capixabas é a sua criação literária, a introdução do realismo fantástico no Espírito Santo e o amor que tinha à sua terra natal, conforme disse, em seu discurso de posse, na AEL, em 28 de junho de 1973: “Nos livros que escrevi, em todos está minh’alma genuflexa ante o seu altar”.