Há meio século, comecei a pesquisar a literatura, suas obras e autores, mas nada conhecia dos autores capixabas, pois seus livros não circulavam. Jovem professor nascido no Caparaó e criado no sul-capixaba, não recebia nenhuma influência cultural de Vitória. Meus primeiros cursos de pós-graduação foram feitos em Belo Horizonte e era mais fácil ir ao Rio participar de congressos do que a Vitória.
Nos anos 60 e 70, estavam na moda os escritores brasileiros e latino-americanos de realismo fantástico. Adorava-os. Escolhi J.J. Veiga, escritor goiano-carioca, e o seu “A máquina extraviada” para fazer minha monografia de graduação, li todos os seus livros, conheci-o pessoalmente e fiz amizade com ele, que durou uns vinte anos, até a sua ida para o Infinito.
Outro escritor que se tornou famoso nessa modalidade foi Murilo Rubião, como “O Pirotécnico Zacarias”, “O Convidado” e outros clássicos do gênero. Passei uma noite divertida com ele, numa taverna em Ouro Preto, tomando vinho quente para esquentar a friagem naquela noite mágica.
Só agora, 50 anos depois, pesquisando a obra de Adelpho Poli Monjardim (1903-2003), vim descobrir que ele foi o primeiro escritor capixaba a cultivar o realismo fantástico e nos deixou quatro livros de contos preciosos escritos nessa modalidade: "Novelas Sombrias", 1944, "A Torre do Silêncio", 1946, "Sob o véu de Ísis", 1978 e "Contos Fantásticos", 1990.
A leitura crítica desses contos daria uma excelente dissertação ou tese e seria trabalho inédito, visto que, até agora, nunca foram analisados como deveriam. O estudo crítico de contos fantásticos é fundamental para o estudo do inconsciente, do reprimido, dos “fantasmas” individuais e coletivos, e disso deu prova Freud, ao estudar os contos de Hoffmann, escritor alemão criador desse tipo de literatura, o realismo fantasmagórico, que tanto marcou o romantismo, no século XIX.
Adelpho Monjardim foi leitor de Hoffmann e Edgar A. Poe, e dele recebeu influências que refletiram nas dezenas de contos por ele publicados.
Adelpho Poli Monjardim, embora tenha escrito seus contos entre as décadas de 40 a 90 do século passado, não recebeu a influência de Kafka, que, talvez nem tenha lido, Cortázar, Borges e de tantos outros autores do realismo fantástico do século XX. Os contos adelphianos refletem figurativizações do século XIX, à Hoffmann ou Poe, conforme já disse, e são extensões de um romantismo gótico, como “As noites na Taverna” ou “Macário”, de Álvares de Azevedo.
Eis aí outra dica para estudo de pós-graduação, a comparação dos contos fantásticos de Álvares de Azevedo com os de Adelpho Poli Monjardim. E o melhor é que se pode fazer um trabalho desse não só na área de Letras, como na de Psicologia ou de Filosofia.
Fico feliz por Machado de Assis estar sendo descoberto pelo povo das redes sociais. O Bruxo do Cosme Velho ataca até nas redes sociais. Quem diria, Machado de Assis acabou no TikTok (rs). Ficaria feliz também se os leitores e escritores capixabas descobrissem outros autores do passado e não olhassem só pros próprios umbigos ou os dos seus próximos. Confesso que tive boas surpresas, quando descobri Haydée Nicolussi, Guilly Bandeira, Mendes Fradique, Amâncio Pereira, Saul de Navarro, Ciro da Cunha e, agora, Adelpho Monjardim.
Claro, todos devidamente contextualizados. É um erro ler autores do passado com olhar de hoje e os cancelar por serem isso ou aquilo, como estão fazendo com Lobato. A censura voltou, nos tempos atuais, como só ocorrera em tempos de ideologias totalitárias e isso não deveria ocorrer em tempos democráticos.