Se vivo fosse, Samuel Machado Duarte completaria nesta segunda-feira (6) 90 anos, mas nos deixou no dia 10 de abril passado. Ele nasceu em 06/05/1934, em Atílio Vivacqua, no Espírito Santo. Foi alfabetizado por sua mãe, professora primária, de quem herdou o gosto pela leitura. Em 1942, foi matriculado na Escola Americana, de Cachoeiro de Itapemirim, na época dirigida pelo pastor e educador Vitorino Moreira, em cuja casa residiu por cinco anos (de 1942 a 1947).
O diretor da escola, notando seu interesse pelos livros, franqueou-lhe o uso de sua biblioteca. Foi assim que, além dos clássicos infantis da época – "Viagens de Gulliver", "Robinson Crusoe", "Dom Quixote", obras de Monteiro Lobato e da senhora Leandro Dupré, entre outros – pôde dar vazão à sua curiosidade e ler todo o "Tesouro da Juventude", assim como coleções da revista "Eu Sei Tudo", assinada por Vitorino Moreira.
Data desse tempo sua incursão pelos clássicos de Homero (“A Ilíada” e “A Odisseia”), pela Bíblia e pela obra dos padres Manuel Bernardes e Antônio Vieira, bem como pela poética de Guerra Junqueiro. Aos 10 anos, tentou o seu primeiro conto, do qual pouca lembrança tinha.
Em 1947, após ler "O Tesouro da Ilha da Trindade", descobriu, admirado, que o seu autor era capixaba. Nascia uma admiração que viria se transformar em amizade e respeito pela grande figura de Adelpho Monjardim. Em fins de 1947, prestou exame de admissão ao curso ginasial do Colégio Estadual Muniz Freire, Liceu de Cachoeiro. De 1947 a 1950, cursou o Ginásio do Liceu. Em 1951, iniciou o Curso Científico.
Desabrochou, com força, seu pendor literário, incentivado por mestres inesquecíveis como Deusdedit Baptista (Inglês), Virgílio Milanez (Português) e Aylton Bermudes (Francês e Filosofia). Datam dessa época as suas traduções do francês – “Le Lac”, “La Mort du Loup” e outros do mesmo jaez – e os seus primeiros versos, notadamente sonetos e longos poemas em alexandrinos.
Durante o ano de 1953, aos 19 anos, escreveu o seu primeiro romance "Meu Servo Jó", que seu senso de autocrítica não permitiu divulgar. Em 1954, fez vestibular para a Faculdade de Odontologia do Espírito Santo, sendo aprovado em primeiro lugar. Nessa época, publicou, no Suplemento Literário Dominical de A Gazeta, alguns sonetos e poemas. Colando grau em 1957, iniciou sua vida profissional em Cachoeiro de Itapemirim.
Em 1964, prestou concurso para o serviço público, tendo sido aprovado e nomeado para o cargo de Odontólogo do antigo IAPTEC. Entre os anos de 1957 e 1960, publicou no jornal O Arauto, de Cachoeiro, algumas centenas de crônicas em uma coluna denominada “Coisas da Cidade”. A publicação dessas crônicas – e de mais alguns contos – levou-o a ingressar na Academia Cachoeirense de Letras, recém-criada, passando a ocupar a Cadeira de nº 29. Tomou posse em 1967, em solenidade que contou com a presença de seu mestre Adelpho Monjardim.
Em 1966, publicou, no Rio de Janeiro, o romance "Ilha de Fim de Mar". Em 1967, logo após sua posse na ACL, esboçou o seu segundo romance, "As Duas Faces de Eros", que só viria a publicar em 2001. Em 1969, transferiu-se para Vila Velha, dedicando-se à clínica particular e à clínica ambulatorial do Inamps. Aposentou-se como cirurgião-dentista autônomo em 1984, continuando, porém, a exercer suas funções junto ao Inamps, já em atividades burocráticas, após haver sido nomeado coordenador regional de Odontologia daquele órgão.
Para desempenhar melhor essa função especializou-se, em 1984, em radiologia, e, em 1988, em Odontologia Social. Em 1988, publicou, em São Paulo, uma pequena coletânea de poemas denominada "O Sino Submerso". Aposentou-se em 1995, passando a se dedicar com mais ênfase, à literatura.
Assim é que, finalmente, editou "As Duas Faces de Eros" e participou de inúmeros certames literários, recebendo algumas premiações nos gêneros contos e crônicas. Seu último romance, "As Montanhas da Lua", foi esboçado em 1982 e publicado em fins de 2004. Publicou "Taperas & Coivaras", contos regionais, em 2014 e tem inéditos "Amor de Minha Terra", crônicas, e "Eu Pescador", poesias.
Seu ensaio histórico-etimológico "O Incalistrado - Topônimos Capixabas de Origem Tupi" foi publicado em 2000 e incluído na coleção José Costa, da Secretaria Municipal de Cultura de Vitória sob o nº 14, reeditada em 2014 com o título de "Topônimos Capixabas de Origem Tupi". Em 2014, publicou "Alma de Mestre", novela.
Era membro efetivo da Academia Cachoeirense de Letras, da Academia Espírito-santense de Letras, da Ordem Nacional dos Escritores e do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Faleceu em 17 de abril de 2024, em São Paulo, onde se encontrava nos últimos anos, em tratamento de saúde. Deixará em todos que com ele conviveram imensa saudade e uma lacuna nas letras capixabas.