"Quando escrevo para crianças, sou compreendida, mas quando escrevo para adultos fico ‘difícil’? Deveria eu escrever para os adultos com as palavras e os sentimentos adequados a uma criança? Não posso falar de ‘igual para igual’?” (Clarice Lispector).
Escrevo para crianças há 40 anos e sei que uma das grandes dificuldades para quem se propõe escrever para elas é justamente essa apontada por Clarice Lispector: encontrar "palavras e sentimentos" que tornem o texto literário um diálogo de "igual para igual" entre adultos e crianças.
Como conseguir isso sem reduzir os valores que devem ter uma obra literária? O desafio é ainda maior quando se sabe que, muitas vezes, os textos literários, principalmente os dirigidos ao leitor jovem ou à criança, têm servido de pretexto para lições de moral e de didatismo, em que o adulto tenta capturar a suposta inocência da criança para transmitir-lhe valores e comportamentos culturais ou ideológicos.
Monteiro Lobato, ao criar a moderna literatura infantojuvenil brasileira, na década de 1920, rompeu com uma tradição moralizante, educativo-pedagógica da literatura de língua portuguesa escrita para o público leitor jovem, que era mais um "pastiche" da literatura europeia.
No entanto, só teve seguidores à altura a partir dos anos 70, quando surgiram os textos de Ziraldo (morto no último sábado), Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Sylvia Orthof e Lygia Bojunga Nunes, dentre outros, que elevaram o estatuto da literatura infantojuvenil brasileira ao patamar que ocupa hoje.
A literatura, por ser um produto cultural humano, fruto do seu "imaginário", surge da necessidade de transformar em símbolos e representações suas descobertas, angústias, ansiedades, desejos e frustrações. Por isso, não se pode desvincular literatura de literatura infantojuvenil. Esta, embora tenha uma linguagem própria, e um sentimento adequado ao público a que se destina, deve estabelecer uma comunicação de troca entre o adulto-emissor e a criança ou jovem, leitor-receptor.
Em síntese: 1) A literatura infantojuvenil é um fenômeno cultural-artístico, que deve ser construído em linguagem predominantemente poética, com função estética. 2) Toda arte é simbólica. A literatura como "arte da palavra", poderá perder seu valor de dialogar mais profunda e abrangente com seus receptores, não despertando a reflexão e a criação que se devem esperar de um texto artístico, se pretender privilegiar o caráter educativo ou informativo em detrimento do estético. 3) Os textos literários são importantes pontos de partida para a leitura do mundo, da vida social e do mundo individual. Sob a rubrica da literatura infantojuvenil, muito se tem escrito e publicado para crianças e jovens. No entanto, não se tem conseguido criar o prazer pela leitura entre eles, como se desejaria. O educador deve descobrir, para poder ensinar, que a leitura é o estabelecimento de diálogos entre os homens, no tempo e no espaço, e uma forma simbólica de registrar a realidade pela palavra escrita. Ler é ver o mundo e, mais do que isso, uma forma de reescrevê-lo, segundo o mestre Paulo Freire.