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Literatura

Conheça o professor negro que recebeu o título de patrono da educação no ES

Afonso Claudio, em seu clássico “História da Literatura Espírito-santense”, de 1912, o considera fundador da prosa de ficção no Espírito Santo, e Oscar Gama, em 1987, diz ter sido ele o criador do teatro infantil no Brasil, em 1915

Publicado em 20 de Maio de 2024 às 01:30

Públicado em 

20 mai 2024 às 01:30
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

No dia 8 de maio, a Assembleia Legislativa do Estado Espírito Santo aprovou o Projeto de Lei nº 404/2022, que declara o educador Amâncio Pinto Pereira (1862-1918) patrono da educação no Espírito Santo. A lei foi encaminhada ao governador para sanção, no dia 9 de maio; ele tem 15 dias para sancioná-la. Com isso, se faz justiça a um dos maiores escritores capixabas de sua geração e a um dos melhores educadores da educação primária em nosso Estado. Mas quem foi esse escritor e professor, hoje tão esquecido?
De origem humilde, o professor Amâncio era filho natural de Maria Teresa dos Remédios, foi criado por uma tia, Francisca Pinto Pereira, a Dona Chiquinha de Caçaroca, de quem herdou o sobrenome e de quem cuidou até a morte, em 1909, tendo recebido uma educação reservada à elite da época.
Fez o primário com o conceituado professor Aristides Freire (1860-1922) e chegou a cursar o Ateneu Provincial, colégio secundário criado em 1873 para preparar a elite masculina para os cursos superiores. Em 1879, ainda estudante no Ateneu Provincial, foi um dos criadores do Grêmio Saldanha Marinha, de feição republicana, manifestando-se, desde moço, em favor da abolição da escravatura.
O professor Amâncio Pereira era filho de negros, não se sabe se pela ascendência materna ou paterna. Por sinal, a maioria dos habitantes do Espírito Santo, em meado do século XIX, era mestiça e era quase igual o número de pessoas pardas e o de brancas, cerca de 14 mil, declaradas no levantamento estatístico de 1856.
No entanto, por falta de recursos financeiros, Amâncio Pereira não pôde fazer o curso de Ciências Jurídicas, reservado aos ricos, passando a atuar na imprensa e no magistério primário, tendo-se formado no Curso Normal, criado em 1871, e feito o curso do “Método João de Deus”, dado pelo professor Silva Jardim, de SP, em 1882, a convite do governador e escritor Inglês de Souza.
De 1883 a 1888, foi professor em Anchieta, sem deixar o jornalismo, as letras, o teatro e a música. Dessa época, são suas primeiras obras, "Miscelâneas", poemas, 1884 e "Deomar", drama em 3 atos, escrito e encenado em 1888. Seu livro Noções Abreviadas de Geografia e História do Espírito Santo, 1ª ed. em 1894 e 5ª em 1914, foi comprado pelo governo estadual, o que lhe permitiu custear algumas edições populares de suas obras de crônicas, contos e teatro.
Afonso Claudio, em seu clássico “História da Literatura Espírito-santense”, de 1912, o considera fundador da prosa de ficção no Espírito Santo, e Oscar Gama, em 1987, diz ter sido ele o criador do teatro infantil no Brasil, em 1915. Quando morreu, de colapso cardíaco, em 1918, era o maior escritor capixaba de sua época, e estava preparando a segunda edição do “Almanak”, lançado naquele ano, e uma Revista teatral para ser encenada pelo Grêmio 3 de Maio, criado por ele, com o fim de arrecadar verbas para a construção da catedral.
Após a sua morte, foram feitas várias homenagens, na Assembleia Legislativa, no Ginásio Espírito-santense, no IHGES, do qual foi um dos fundadores, e seu nome foi dado a uma rua, em Jucutuquara, e a uma escola, em São Mateus.
Literatura
Amâncio Pinto Pereira (1862-1918) foi professor e escritor Crédito: Reprodução
No entanto, sua obra ficou esquecida e ele nunca foi lembrado como escritor em nenhuma antologia feita no Espírito Santo. Somente sua obra teatral foi analisada por Oscar Gama, em 1987, em “Teatro Romântico Capixaba”, com a publicação de duas de suas comédias: “O Tio Mendes” e “Virou-se o feitiço”, de 1894.
Em seu livro “Caminhos Percorridos. Memórias Inacabadas”, Luiz Serafim Derenzi, que foi seu aluno, em 1908, assim o descreve, quando sua mãe o levou para se matricular no Colégio Amâncio Pereira, que funcionava na casa do professor, na Cidade Alta:
“Bom dia! Vim matricular meu filho no Colégio Amâncio Pereira, pero creio ter me sbagliato. É uma casa de família. Desculpe-me, sim, per piacere."
"Minha senhora, eu sou o professor Amâncio Pereira, a escola é aqui mesmo, mas hoje é feriado, dia de Tiradentes, porém podemos matricular a criança agora. Entrem, por favor."
Abriu a porta. Era a sala de aulas. Um sofá de jacarandá, duas cadeiras de encosto oval, escarradeira e um consolo reto com uma jarra azul cheia de galhos de crista de galo grená. Relógio na parede, quadro-negro, mesa retangular de vinhático suportando tímpano, palmatória, tinteiro com duas bocas e um livro de capa mole, com o canto direito todo arrebitado. Vários bancos, algumas cadeiras, duas ou três estantes que tanto poderiam servir de escrivaninhas como encosto para leitura.
O professor Amâncio Pereira abriu o livro de folhas arrepiadas, em determinada página, escreveu um número na margem, na coluna seguinte escreveu 37 e perguntou o nome, data de nascimento, local, filiação e residência.
" Como? Mora no Hotel Rocco?"
"Sim. Nós viemos de Matilde. Meu marido é ferroviário e o menino precisa estudar. Vai ficar no hotel."
"Sozinho?"
"Sim. Nós não temos parentes na cidade. Meu marido trabalha no interior."
Foi feita a matrícula.
"Amanhã, às oito, começam as aulas. Ele deve trazer o primeiro livro de leitura, de Felisberto de Carvalho, um caderno, caneta, tinteiro, uma lousa para cálculos e lápis. A senhora pode comprar ali na rua do Sacramento, na Casa Manoel Braz", e apontou lá para baixo, para o lado do largo da Conceição.
Despediram-se com todas as cortesias de estilo.
O professor Amâncio tinha justa fama de educador. Homem negro, muito querido. Era só bondade, inteligência e patriotismo. Gostava de narrar episódios do tempo da escravatura. Conhecia como pouca gente a história capixaba. Tinha inclinação para a literatura teatral e escreveu diversas comédias infantis com lindas melodias. A 13 de maio daquele ano, o novo aluno fez parte do coro e cantou o estribilho que jamais saiu da memória:
"Hosanas, glórias, triunfos,
E à luz da redenção,
No vasto solo brasílio,
Acabou a escravidão.”

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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