Assisti ao Gladiador II, do Ridley Scott, e a mensagem que essa ficção cinematográfica passa é a de que a história é feita pela luta pelo poder e esse só é conquistado pela violência. Norte-americanos, dentre outros povos, se consideram herdeiros dos romanos e deles herdaram, sobretudo, a violência na conquista de seu território, no extermínio dos povos originários e na escravização dos pretos africanos. Não à toa, estiveram envolvidos em todas as guerras dos últimos séculos e construíram a maior indústria bélica do hemisfério ocidental.
Essa indústria é liderada por empresas que fabricam aviões de combate, sistemas de mísseis e eletrônicos de defesa e aumentou seu valor de mercado, após a guerra entre Rússia e Ucrânia. Outra poderosa indústria norte-americana é a de fabricação de armas e a Associação Nacional do Rifle é uma organização política fortalecida que faz vigoroso lobby contra todas as formas de controle de armas. E isso alcança o Brasil, com grande bancada eleita de políticos favoráveis ao armamento do cidadão, a ‘bancada da bala’, da extrema-direita. Nosso estado está ‘bem’ representado nessa categoria armamentista, tanto na Câmara quanto no Senado.
Mia Couto, o maior escritor de Moçambique, e forte candidato ao Prêmio Nobel de Literatura, assim nos disse em fala memorável divulgada nas redes sociais: “Para fabricar armas, é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos, é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse aparato requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome”. Seu texto é essencial, quando pergunta: por que a crise global não atingiu a indústria de armamento? Dentre as respostas, ele cita “o medo”, referindo-se a Eduardo Galeano, pois temos medo de tudo: civis temem militares e esses os civis armados, e por aí vai.
Quem ainda não viu, o vídeo se chama “O medo global”. Por vivermos um medo eterno do outro, o homem se torna o lobo do próprio homem. Vivemos o tempo todo nos preparando para uma guerra, que, às vezes, começa dentro de casa, haja vista os feminicídios, cada vez mais violentos e frequentes.
O Brasil possui um dos maiores exércitos do mundo, estando entre os dez maiores, lista liderada por Estados Unidos, Coreia do Norte e Rússia e, no entanto, não entra em guerra desde 1943, quando, forçado pelos Estados Unidos, participou da II Guerra Mundial. Quanto ao índice de Poder Militar, nosso país ocupa o 12º lugar, logo atrás de Turquia e Itália, lista também liderada por Estados Unidos, Rússia e China. O Brasil investe mais de 1% do PIB nas forças armadas e cerca de 80% desse valor são destinados ao pagamento ao pessoal da ativa, da reserva e às pensões.
Considerando que militares entram nas forças armadas aos 18 anos e se aposentam, ou vão para a reserva remunerada, com trinta anos de serviço, eles se afastam com menos de cinquenta anos de idade. Com isso, a despesa com segurança é cada vez maior e a conta não fecha. O primeiro passo é acabar com o serviço militar obrigatório. Não se pode obrigar ninguém a pegar em armas. Ser militar é uma opção de vida, como qualquer profissão. O segundo é rever essas dispendiosas pensões e aposentadorias de militares. O pacote do ministro Hadad começou a mexer nessa casa de marimbondo, mas ainda é pouco.