Os mais antigos se lembram da telenovela de origem cubana “O Direto de Nascer”, que teve três adaptações brasileiras, a primeira de 1964 a 1965 e, depois, em 1978 e em 2001. Também estamos acostumados à polêmica sobre o direito de nascer de fetos em gestação. A legislação brasileira permite o aborto somente em três casos: estupro, anencefalia ou risco à mãe, o que já é um avanço, tal a influência religiosa e o conservadorismo hipócrita brasileiro.
Abortos são feitos aos milhares, em clínicas clandestinas, expondo as mulheres a riscos de morte evitáveis. Agora, o que está em discussão, na sociedade, é o direito à morte digna, a eutanásia, em casos de doenças incuráveis ou de pacientes terminais, e o tema deve entrar em discussão no Congresso Nacional.
Assisti ao filme “O quarto ao lado”, de 2024, mais uma excelente obra do extraordinário diretor espanhol Pedro Almodóvar, que coloca em discussão o tema da eutanásia, ou do suicídio, de uma forma sensível, humanizada, sem os julgamentos próprios de fanáticos religiosos, como o do policial encarregado da investigação da morte.
O filme já ganhou vários prêmios e deve ser indicado ao Oscar em várias categorias, incluindo a de melhor atriz para Tilda Swinton e a de coadjuvante para Juliane Moore. Ambas fazem o papel de Ingrid e Martha, amigas na juventude, quando trabalhavam juntas na mesma revista. Elas se reencontram, quando Ingrid, escritora consagrada, fica sabendo que Martha está isolada em um hospital de Nova York, para tratamento de câncer, distante de sua única filha, e resolve visitá-la.
A partir daí, a narrativa se desenrola com o envolvimento cada vez maior de Ingrid na dor e no sofrimento da amiga, brilhantemente interpretada por Tilda Swinton. Na verdade, ambas dão show de interpretação, ao tratar de questões complexas como a do direto de ter uma morte digna, enquanto se tem lucidez para decidir, e o da maternidade indesejada.
Outros temas sociais são abordados por Damian, amigo das duas no passado, que ajuda Ingrid a entender melhor os desejos de Martha e faz críticas ao aquecimento global e à destruição ambiental. É dele a fala fundamental de que a questão da eutanásia só será legalmente permitida com o colapso dos planos de saúde, o que parece já estar ocorrendo.
Como sempre, Almodóvar faz uma obra de arte, ética e esteticamente bem realizada, com esse filme pela primeira vez em inglês, embora mantenha o acento latino com o fundo musical e a história de dois carmelitas na guerra do Iraque.
O suicídio é visto pelos cristãos fundamentalistas como um pecado contra Deus e o próximo, e a Bíblia o condena veementemente. No entanto, tirante a questão religiosa, a sociedade precisa discutir, com urgência, como um dos direitos fundamentais do ser humano, o de morrer dignamente, como já o faz a Suíça, o único país do mundo a legalizar a questão.