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Francisco Aurelio Ribeiro

A guinada do povo brasileiro para a direita

No Espírito Santo, o fenômeno foi Lucas Polese, também do PL, que teve uma votação recorde para deputado federal de quase 420 mil votos

Publicado em 19 de Outubro de 2026 às 04:00

Públicado em 

19 out 2026 às 04:00
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro Francisco Aurelio Ribeiro

O que ficou claro para todo mundo nas eleições de 2026 foi a virada do eleitor brasileiro para a direita. Após uma acirrada campanha em que não se discutiram ideias nem propostas de governo, e o principal palco da batalha foram as redes sociais, venceram os candidatos de partidos à direita, dentre os quais jovens puxadores de voto como Nikolas Ferreira, do PL-MG e Lucas Pavanato, do PL-SP, ambos  com mais de três milhões de votos cada. 


No Espírito Santo, o fenômeno foi Lucas Polese, também do PL, que teve uma votação recorde para deputado federal de quase 420 mil votos. Impressionante é que ele teve uma atuação apagada na Assembleia Legislativa e participou de um incidente, quando foi detido, após acidente rodoviário, dirigindo um automóvel público, aparentemente embriagado. 


Parece que nada disso importa ao eleitor, que escolheu seu candidato pela emoção, pelo movimento antipetista e pelo desejo de “mudar tudo isso aí”, como ouvi de um amigo. A extraordinária votação desse jovem bolsonarista ainda levou mais um deputado, Lucas Casagrande, o Federal da Direita. Não por acaso, além de jovens, todos são brancos e descendentes de europeus.

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Os analistas e cientistas políticos contemporâneos tentam explicar esse fenômeno, após a fragorosa derrota silenciosa da esquerda, não prevista nas pesquisas eleitorais, diuturnamente divulgadas. Encontro a explicação na cientista social Hannah Arendt (1906-1975), que publicou, dentre outras obras essenciais, “Origens do Totalitarismo”, “A banalidade do mal”, “Homens em tempos sombrios”, “Entre o passado e o futuro” e “A Condição Humana”. 


Segundo ela, na primeira obra citada, “as massas não se unem pela consciência de um interesse comum e falta-lhes aquela específica articulação de classes que se expressa em objetivos determinados, limitados e atingíveis. O termo massa só se aplica, quando lidamos com pessoas que, simplesmente devido ao seu número, ou à sua indiferença, ou a uma mistura de ambos, não se podem integrar numa organização baseada no interesse comum, seja partido político, organização profissional ou sindicato de trabalhadores. Potencialmente, as massas existem em qualquer país e constituem a maioria das pessoas neutras e politicamente indiferentes, que nunca se filiam a um partido e raramente exercem o poder de voto”. 


Isso explica o fato de jovens sem uma carreira profissional ou política, sem nunca terem trabalhado na vida, sem uma atuação propositiva nos cargos políticos em que atuam terem tido uma votação massiva por gente que nem conhece sua vida pregressa e se deixam seduzir por seus rostinhos bem apessoados e seu discurso bem articulado de ódio aos “esquerdopatas” , nas redes sociais.

Vista geral do Congresso Nacional, na Esplanada dos Ministérios Dida Sampaio/Estadão Conteúdo/AE

Arendt ainda afirma que “em sua ascensão, tanto o movimento nazista da Alemanha quanto os movimentos comunistas da Europa depois de 1930 recrutaram os seus membros dentre essa massa de pessoas indiferentes, que todos os outro partidos haviam abandonado por lhe parecerem demasiado apáticas ou estúpidas para lhes merecerem a atenção. A maioria de seus membros, portanto, consistia em elementos que nunca antes haviam participado da política. […] As discórdias ideológicas com outros partidos ser-lhes-iam desvantajosas se eles competissem sinceramente com esses partidos; não o eram, porém, porquanto lidavam com pessoas que tinham motivos para hostilizar igualmente a todos os partidos”. 


Por outro lado, a esquerda também fez uma bancada de resistência, como as deputadas Jack Rocha, do PT, a segunda mais votada no Espírito Santo ao Congresso Nacional, com 142 mil votos. E na Assembleia, Camila Valadão, do PSOL, pela primeira vez, uma mulher teve a primazia dos votos, com 61.501, e a enfermeira e vereadora de Cariacica, Açucena, do PT, com quase 36 mil votos. 


No cenário nacional, Erika Hilton, do PSOL, de SP, mulher trans, teve 1,5 milhão de votos e Ana Elisa, a jovem professora e influenciadora digital de MG, negra, filha de mãe solo, teve 524 mil votos, só perdendo para o Nikolas. Com 21 anos, será a mais nova deputada no Congresso Nacional. Veremos como se sairão no Parlamento Nacional esses jovens brancos de direita e as mulheres pretas de esquerda. Quem sobreviver verá!      

Francisco Aurelio Ribeiro

Francisco Aurelio Ribeiro Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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