“Sete de Setembro/ Data tão festiva/ Foi a Independência/ Desta terra tão querida/ Hoje está liberto[…]/ Viva a Independência do Brasil/ do Brasil”.
Esses eram os versos da Canção da Independência sabidos de cor e salteado pelos alunos da escola primária onde estudei, no Caparaó, há 60 anos. Havia, também, o “Hino da Independência”, composto por Evaristo da Veiga e música, dizem, feita pelo Imperador D. Pedro I, mas tenho cá minhas dúvidas, se não foi feita por um padre Maurício qualquer que entendia mais de composição musical do que ele, especialista em domar mulheres e cavalos: “Já podeis da Pátria, filhos,/ Ver contente a mãe gentil/ Já raiou a Liberdade/ No horizonte do Brasil”. Sempre havia um colega mais moleque que cantava: “Japonês tem quatro filhos…” O resto era tão politicamente incorreto que, se eu continuar a transcrição, posso ser processado pelas leis antidiscriminatórias atuais.
O certo é que comemorávamos, com pompa e circunstância, a data magna do país, aquela em que lembrávamos o Grito do Ipiranga, o “Laços, fora, companheiros…”, o momento em que, em 1822, um príncipe português rebelava-se contra o próprio pai, o D. João Corno, tornando o Brasil liberto de Portugal, após 322 anos de dominação lusitana.
Era feriado escolar, mas não podíamos viajar, pescar, caçar rolinhas (naquela época podia) ou ir ao shopping (que não havia). O Sete de Setembro era comemorado festivamente com um desfile cívico-militar, fizesse sol ou chuva, fosse domingo ou segunda. Todos os alunos e a sociedade organizada participavam da parada, como a chamávamos.
Lembro-me do último em que desfilei como Pe. José de Anchieta,em 1963, no meio de um monte de crianças fantasiadas com flecha, cocar, tanguinha e colar, enfeitadas com penas de galinha branca tingidas de anilina, num calor danado, dentro daquela sotaina de padre jesuíta.
Após o desfile, suando e desidratado, jurei pra minha mãe que, no ano seguinte, queria sair de indígena. Pena que, no ano seguinte, houve o golpe militar de 1964 e os desfiles foram transformados em parada militar. Todo mundo virou soldado, para defender o país do comunismo, do risco de virar capacho de Moscou, etc. Todos sabem no que deu.
Mas, voltando àquele último desfile de que participei na infância, o sonho de todo menino era ser o Pedro Álvares Cabral, que iniciava o cortejo vestido como sultão de Bagdá, daquela época dos tempos das mil e uma noites, ou, então, o próprio D. Pedro I que, montado no cavalo, encenava o Grito do Ipiranga, o último ato daquele espetáculo teatral de história e de suposta cidadania.
Só que, para ser um ou outro, tinha de ser de família rica, pois a roupa era cara e, no caso do último, saber montar, o que poucos de nós éramos ou sabíamos, por isso, os escolhidos eram, sempre, o Toni Lemos, que depois virou cantor, e o Delfino, possuidor de um belo cavalo alazão que todos invejávamos.
Hoje, não sei como é comemorado o Dia da Independência nas escolas brasileiras. Nem sei também se as crianças sabem cantar aqueles hinos da nossa infância, desde que ficou fora de moda cultuar datas cívicas e heróis nacionais. Carregar bandeira e vestir verde e amarelo só é popularizado de quatro em quatro anos, nas Copas do Mundo de Futebol, ou pelos bolsonaristas, que usurparam as cores nacionais como símbolo ideológico de uma facção política ultradireitista.
Mais que nunca, comemorar a independência do Brasil é necessário, visto que os líderes desse movimento, se eleitos, têm como propósito entregar o Brasil e suas riquezas aos Estados Unidos. Aí, sim, nosso país se assemelhará à Venezuela, transformada em fantoche do Trump, um usurpador do petróleo venezuelano.