Pois é, todo mundo errou, e o Partido Socialista conquistou maioria absoluta nas últimas eleições de Portugal. Quando digo todo mundo, me incluo e também o próprio atual primeiro-ministro António Costa, o grande vencedor dessas eleições. Foi de fato a grande surpresa. As pesquisas de boca de urna já davam uma vitória aos socialistas. Quando começou a contagem dos votos, a vantagem do PS sobre o PSD só foi aumentando. Os portugueses, nessas eleições antecipadas, votaram pela não mudança. A maioria provavelmente votou pela estabilidade.
Mas o que significa essa vitória por maioria absoluta nestas eleições antecipadas de Portugal? Significa muito. Significa que o primeiro-ministro António Costa não terá que negociar com a Assembleia a sua forma de governar. Com a maioria, o governo afastou-se da esquerda radical, deixou seu principal adversário politico, o PDS, nas cordas e fez surgir uma direita mais aguerrida com o Partido Iniciativa Liberal e, à sombra da extrema direita, crescer com o Partido Chega.
Ao contrário do que se imaginava, foi um presente maior do que o esperado. Na última semana de campanha, houve uma mudança de chave para a manutenção do PS no poder. Os eleitores de centro, mesmo com a disputa apertada, aderiram em sua maioria ao Partido Socialista. Aqui em Portugal os dois grandes partidos, o PS – Partido Socialista e o PSD – Partido Social Democrata, eram os únicos que tinham condições de formar o governo. Com esse resultado, na prática, o governo não terá necessidade de coalisões com outros partidos.
A pandemia e o esgotamento natural dos portugueses, com tudo que vem acontecendo nos últimos dois anos, parecem ter contribuído para essa maioria. Até a diminuição das abstenções, nessas eleições, jogaram a favor do PS. O partido tem agora um enorme desafio pela frente, pois só dependerá dele colocar Portugal novamente em ritmo de crescimento. Como havia dito na coluna passada, Portugal necessita de mudanças profundas e urgentes para sair da cauda da Europa.
O país não pode perder mais tempo com medidas paliativas. É preciso resolver a questão dos médicos de família. Estima-se que mais de 1 milhão de portugueses não tenham médicos para acompanhá-los. É hoje um dos países mais envelhecidos da Europa. Tem a terceira maior dívida pública da Europa, algo perto de 127% do seu PIB. Tem também uma das piores médias de produtividade do continente europeu. O país cresce menos que a Lituânia, Estônia, Polônia, Hungria, Eslovênia e Malta, países recém-chegados à zona do Euro. O país empobreceu ao longo dos últimos vinte anos, passando a ocupar o 21º lugar, entre os 28 países da União Europeia.
A última eleição com maioria absoluta também foi para o governo do Partido Socialista e as coisas não correram nada bem. Os portugueses sabiam disso, mas votaram para deixar as coisas da forma que estão. Ou seja, manter o PS no poder. Só não imaginaram que dariam maioria absoluta ao partido, que tem agora a faca e queijo na mão. Só o tempo dirá se saberá repartir.