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É consultor e palestrante em Inovação e Estratégia. Neste espaço, novidades e reflexões sobre mercado de trabalho e tecnologia têm sempre destaque. Escreve aos sábados

Sem o setor da indústria, a inovação no país fica capenga

História da Apple, em que a concepção dos produtos exigiu profundo conhecimento de materiais, eletrônica e hardware, nos aponta um caminho diferente, que poderia ser trilhado pelo Brasil

Publicado em 07/08/2021 às 02h00
Tese de que para o Brasil crescer bastaria concentrar esforços em serviços, e esquecer a indústria, não se sustenta
Tese de que para o Brasil crescer bastaria concentrar esforços em serviços, e esquecer a indústria, não se sustenta. Crédito: Fanjianhua/ Freepik

Outro dia escutei uma palestra em que um economista defendia a ideia de que ter indústrias não seriam importantes para um país, visto que haveria uma tendência para que o setor de serviços tivesse maior relevância para os empregos e para o crescimento da economia. A história da Apple contada na biografia de Steve Jobs, de Walter Isaacson, e no livro “Jony Ive: o gênio por trás dos grandes produtos da Apple'' nos dá uma impressão diferente.

A concepção dos produtos não foi algo que se fez apenas desenhando em um software. O trabalho envolveu um profundo conhecimento de materiais, eletrônica e hardware. Houve necessidade de desenvolver novos materiais que atendessem as especificações de tamanho e espessura preconizadas para atender o que Jobs e Ive perceberam como a necessidade que o mercado queria. Estudaram tudo sobre alumínio, aço, acrílico, titânio, vidro, plástico, circuitos, antenas, telas touch.

Para implementar as facilidades do movimento de pinça e arrasto na tela descobriram e compraram uma pequena empresa em Delaware, chamada FingerWorks, de pesquisadores que criaram a tecnologia. Para o vidro do iPhone, foram buscar um novo desenvolvimento pioneiro com a Corning Glass, tradicional indústria de vidros. A quantidade de patentes geradas para cada produto Apple é imensa.

Para o projeto original do iPod, os engenheiros casaram um disco da Toshiba com uma bateria de celular e uma tela da Sony, um conversor digital-analógico de uma pequena empresa escocesa, um controlador de interface FireWire da Texas Instruments, um chip de memória flash da Sharp Electronics, um chip de gestão de energia e carregamento da bateria da Linear Technologies Inc e um chip controlador e decodificador de MP3 da PortalPlayer.

Quando Jony Ive decidiu que o iMac seria transparente, se deu conta de que os componentes internos também teriam que ser projetados cuidadosamente, porque passariam a ser visíveis, o que implicava uma proteção eletromagnética especial, já que nos produtos opacos eles ficavam ocultos em uma caixa de metal grande e feiosa.

Jony pediu que os designers trouxessem as peças coloridas e transparentes que pudessem encontrar como inspiração. Trouxeram uma lanterna traseira de BMW, vários utensílios de cozinha, uma garrafa térmica de um azul profundo e brilhante. De fato, o iMac final pareceu um casamento entre a garrafa térmica e uma luz traseira de automóvel. A imaginação está acoplada ao pensamento industrial e não pode ficar distante do ambiente de produção.

A produção de muitos dos equipamentos da Apple é feita em outros países, muitos na China, não pela mão de obra barata, mas pela tecnologia mesmo de fabricação. Os engenheiros da Apple se deslocavam por semanas para as fábricas para acertar a produção. Porém se percebe, pela narrativa apresentada, a importância de conhecer profundamente os componentes e os processos industriais, sem o que ficaria impossível conceber adequadamente os produtos.

O exemplo da Embraer no Brasil mostra a importância do domínio da concepção dos produtos, mas também a capacidade de produção, mesmo que se use os melhores componentes do mundo. A engenharia é fundamental para que se aproveitem as oportunidades de inovação e participação nas cadeias globais de valor.

Por exemplo, as novas exigências de sustentabilidade criam enormes possibilidades para quem é capaz de produzir automóveis elétricos ou equipamentos para energias alternativas. Ou empresas capazes de produzir dentro da bioeconomia ou da indústria farmacêutica. Tudo isso exige investimento em P&D, inovação, engenharia, patentes, formação de pessoal técnico e capacidade industrial, mesmo que não para todos os componentes de um produto.

Por que o Brasil não consegue ser relevante nas indústrias fornecedoras do agronegócio ou da mineração, onde domina boa parte das commodities no mundo? Essa história de ficar só concentrado em serviços não se sustenta.

Mas também não cabem mais reservas de mercados, subsídios infinitos, taxações enormes de importação e apoios irreais a pretensos campeões nacionais, normalmente alimentados por lobbies poderosos ou equívocos estratégicos. Os investidores anjo, os fundos de venture capital e private equity e as bolsas de valores estão ávidos por bons projetos capazes de competir no mundo, nos serviços, mas também muito na indústria, com sua enorme capacidade de gerar empregos de alto nível.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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